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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


24
Out17

Um abraço muda?

por Fátima Pinheiro

filho pródigo.jpg

 

Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage

REMBRANDT

Sou do tempo em que havia Catequese. A parábola do Filho Pródigo era um must. Fiz desenhos, pintei, tiraram-me as conclusões. Tinha menos de 10 anos. Mas ao fim de tantos anos, tive a sorte de ma apresentarem de forma espetacular; leve! E, cereja no topo do cake: quando dava aulas em S. Petersburgo, passei horas no Museu Hermitage, a olhar para a obra de Rembrandt sobre o tema. Começou uma mudança. Foi um pontapé para que eu deixasse de me "esbanjar". A questão não está em que o pródigo gaste a fortuna. O principal é que ele, eu, me tinha esbanjado. Descuidado a minha pessoa. Como? É simples. E acontece sem que se dê por isso. Era mais a pintura a olhar para mim do que eu a olhar para ela. Eu, caladinha mais que um minuto? Muito difícil. Ali não.

A imponência do Belo ainda hoje me abraça, como uma Pessoa. O quadro é de um tamanho tal e está tão bem situado (em arte, os russos tem quase todos os trunfos...) que eu era mergulhada nele, misturava-me e perdia-me. E por sorte as mãos de Rembrandt pintam na luz que eu prefiro. E por sorte cabia no tamanho dos protagonistas. Protegida do frio e da neve a fazerem de pedra os canais da Veneza imperial, e no calor das cores de uma obra única, fui o Pai, o filho mais novo, o mais velho, os que estão atrás, e aquele que dizem poder ser o próprio Rembrandt. Às vezes não era ninguém. Era a tela, uma mancha, um resto do pincel; e recomecei a ser repintada, retocada e a perceber o que era afinal a obra aberta, meu querido Husserl (Eco e Gadamer vieram muito depois; mas nós, Edmundo, não somos de modas...). Outros horizontes. 

Tenho vindo a perceber, que o que quero é ser como o Pai, que se esbanja em Amor. Com duas mãos - fizeram-me notar que uma é pintada de masculino e a outra de feminino - a perder, sem nada excluir. Porquê? Porque tenho experimentado que o que me realiza é dar. É assim que se recebe. Sim, porque o que quero é receber. Por acaso nasci ontem? É simples esquecer tudo isto: o que quero, quem quero, e por aí. Porquê? Porque penso que sou eu que faço o Amor. Muito enganada! É Ele que me faz. Eu sou um belo traço nas mão de Rembrandt. É por por isso que posso ter a pretensão de querer ser como Ele. E daqui retiro muitas conclusões em relação ao que temos vivido...

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5 comentários

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De pitosga a 24.10.2017 às 16:09

O Padre Henri Jozef Machiel Nouwen escreveu um excelente e belo texto: “O regresso do filho pródigo”, traduzido impecavelmente por Margarida Maria Osório Gonçalves.
Vala a pena comprá-lo e lê-lo: várias vezes.

Veja esta parte:
Disse ao pai: «Pai, dá me a parte da herança que me cabe»; juntou tudo o que lhe coube e foi se embora. Lucas conta tudo isto de uma forma tão simples e prosaica, que se torna difícil dar conta de que tudo o que se está a passar é realmente um facto inaudito: agressivo, ofensivo e em total contradição com a mais venerada tradição da época.
Keneth Bailey, na sua perspicaz explicação da história de Lucas, diz que a forma como o filho se foi embora é equivalente a desejar a morte do pai. Bailey escreve:
«Ao longo de mais de 15 anos, tenho andado a interrogar povos de todo o tipo, desde Marrocos à Índia, da Turquia ao Sudão, sobre as implicações que poderia ter o facto de um filho reclamar a herança em vida do pai. A resposta foi sempre a mesma... A conversa desenrolava se como se segue:
– Houve alguém do seu povo que tenha pedido uma coisa assim?
– Nunca!
– Poderia alguma vez alguém pedir uma coisa assim?
– Impossível!
– Se alguma vez alguém o fizesse, que aconteceria?
– O pai matá lo ia à pancada, imediatamente!
– Porquê?
– Uma petição assim significaria que desejava que o pai morresse».
Bailey explica que o filho pede, não só que se faça a partilha da herança, mas reclama também o direito de dispor da sua parte.
«Depois de renunciar aos seus bens em favor do filho, o pai tem contudo o direito de viver dos rendimentos... enquanto for vivo. Assim, o filho mais novo não tem nenhum direito sobre o património até à morte do pai. A contradição de “Pai, não posso esperar que morras”, está subjacente à petição do filho».
Sendo assim, a «partida» do filho é um acto muito mais ofensivo do que pode parecer numa primeira leitura. Pressupõe a rejeição do lar em que o filho nasceu e foi alimentado, e é uma ruptura com a mais cara tradição cuidadosamente obervada pela grande comunidade de que fazia parte. Quando Lucas escreve: «partiu para um país distante», quer dar a entender muito mais do que o desejo de um rapaz novo por correr mundo. Exprime um corte drástico com a forma de viver, pensar e agir que lhe fora transmitida de geração em geração como legado sagrado. Mais que uma falta de respeito, é uma traição aos valores da família e da comunidade. O «país distante» é o mundo onde se ignora tudo o que em casa se considera sagrado.

Tenha uma boa vida nova.
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De Anónimo a 24.10.2017 às 17:39

Li. É fabuloso!!!
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De Anónimo a 24.10.2017 às 17:40

Eu li a edição espanhola e apreciei
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De Anónimo a 24.10.2017 às 22:08

Concordo plenamente com muitas coisas que escreveu, mas uma salta à vista: não sou de modas..

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