Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


09
Fev17

Uma Palavra que me sabe dizer.

por Fátima Pinheiro

santiago.jpg

 fotografia Rasante

 

Santiago levava-me muitas vezes à praia. É uma criança muito curiosa. Quer resposta a tudo. E quando digo alguma palavra que ele não percebe, pergunta sempre: "O que é que isso significa?" Não é ficção o que digo. Ambos existimos mesmo, como se vê numa das fotografias que dele guardo, e que pus em cima. Pois este furacão clarifica-me na pergunta: "mas a vida tem lei?" Puro e duro. "Tem sim." "Já te digo". "Qual é?", insiste a beleza inquieta de dois olhos que fixam o movimento das águas. Vamos a isso. Uma espécie de amar e mar. Um Django libertado à minha maneira.

As palavras, os termos, os conceitos são apenas sons articulados, vazios, se os forjamos e utilizamos sem nos apercebermos que cada um tem dentro de si como que uma seta que aponta, mais ou menos vagamente, para um sentido. O que digo percebe-se melhor em frente ao mar, ao fogo, ou no alto de uma montanha. Mas nem sempre assim elas, as palavras, são entendidas. Há quem as mate antes de nós as ressuscitarmos com o nosso dizer; há quem lhes encolha o sentido; há quem que lhes corte a raíz antes de nascerem. Enfim, há de tudo. E há Austin, que no seu "How do to things with words?", nos cava a reflexão, o que nos levaria a um post sobre "actos ilocucionários". Mas o tempo não chega para tudo, e isso dar-me-ia muito trabalho.  Deixo apenas uma nota sobre como compreendo a vida. Sem grandes filosofias. Coisinha pouca...

As palavras podem dizer tudo, ou nada. Quem as leva a sério empenha-se em abri-las como se fossem um presente. Contudo, nem sempre assim é. E muitas vezes apenas porque não quero ou não sei desembrulhar. O trabalho do pensamento sobre si mesmo exige tempo e disposição...

E as respostas que o Santigo quer estão, de certo modo, nele. Só que ele ainda não sabe. Ele sabe, sim, se o que lhe respondo lhe chega; se lhe enche as medidas. Um dia de verão ele olhou demoradamente o mar, como se quisesse galgá-lo para além da linha do horizonte. Lembrou-me aquele célebre menino que um dia resolveu encher o seu balde com ele. Não conseguia, claro. Pazadas e pazadas, e não conseguia.

A lei da vida? Nascemos, estamos aqui. Um dia morremos, não sabemos nem quando, nem onde. Há os que neste intermezzo resolvem sair "antes", cortando o que não aguentam. Somos aquele "nível" da natureza que tem consciência disto tudo, e da própria natureza claro. Observamos (às vezes não...), perguntamos, desistimos ou continuamos. E agora o ponto: tudo flui com as suas regularidades. "Os rios correm para o mar"; nunca ouvi um rio dizer, "hoje não". Ou uma árvore: "hoje não dou sombra". É a lei da natureza. Eu sim posso mudar o curso do rio, ou cortar a árvore. E eu? Como encaro o meu "correr"? Como me entendo com o sol e a sombra?

Se quero mesmo saber, e não apenas ser um diletante, tenho que me observar em ação. Páro então. O que vejo no filme da minha vida? Muitas vezes sou apenas o resultado do que me determina, do que vem de trás, e "faço" mecanicamente a um ritmo para o qual não fui tida nem achada; outras "faço" as coisas tendo presente a big picture. É então (como já aqui disse a propósio de T. S. Eliot) que o tempo - este momento - se racha e experimento a "dependência" de um X que eu não sei, não cabe no balde, mas sem o qual, o tempo seria uma voraz onda de morte; um entretem de nadas para o nada. Experimento então que o todo é expressão de uma Palavra diferente de todas as outras.

Nada disto digo ao Santiago. A ele respondo à pergunta que já lá está longe em cima: "É Deus". "Quem é?"; uf, não para. Eu: "Deus é quem estás a fazer o mar." Ponho-me ao nível dele, de cócoras, ignoro a sinalização que se encontra à sua direita, e esforço-me para que ele me oiça. Esforço-me sim; porque não lhe interessa muito o que digo, mas sim o que ele vê diante de si. E está certo, sou só amiga dele, mas impotente - como qualquer um de nós - para responder a tão grande pergunta. A resposta. "Olha bem Santigo, tás a ver as ondas...", ele já não me está a ouvir. E começa a correr... Que bom!. A resposta vejo-a agora eu, no silêncio e espanto dos olhos dele. A lei da vida tem para mim desde então mais um nome: Santiago. Uma Palavra que me sabe dizer. Todinha. Sem tirar nem por.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D


Links

imagens rasantes