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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


"Cristo" de Antonello, da net

Cada ano apagamos pelo menos uma vela. Eu acendo muitas,embora não seja mulher de muitas ceras. Ceras só "búfalo" ou marca branca. E gosto de esfregar o chão. À vela da seta do tempo de cada um, prefiro chamar labareda. E não a apago, acendo-a. Atiço-a. Vai sendo por isso cada vez mais e mais simples de "a pagar", porque o fôlego necessário e adequado aumenta. Sei que a vida não é cor de rosa (se estivesse a falar do Governo seria verdade; mas em breve não...). A vida é vermelha porque feita de sangue. Não preciso de dar exemplos pois não? É simples. Procurar razões que me façam dizer se o copo está meio vazio ou meio cheio. Pedir ajuda. Claro que posso dizer que não há copo. Hoje, que se acendeu em mim mais uma labareda é para dizer que levo e dou estalos. E falo da Teresa, de António Lobo Antunes e de Herberto Helder. Um dia encontrei por acaso o jornalista Daniel Oliveira. A certa altura disse-me que era filho dele. Sem querer comentei : "não parece nada". "Gostava tanto de entrevistar o seu pai!" Recebi um redondo e seco "não". "Nem pense!" É que nem pensar! Cada estalo é uma festinha.

Cá e lá fora, em cada um de nós a carne é implacável. E cruzamo-nos. E amamos. Ou matamos. Por vezes apenas num olhar. Cada ano que passa para que serve? E não preciso de muito tempo para arregaçar as mangas do dia. Pareçe vira o disco e toca o mesmo, mas não. Um amigo meu - filósofo de verdade - dizia-me há semanas que a negatividade que enfrentava neste momento da sua vida o obrigou a apagar todas as outras negatividades. O que quer dizer que cada dia - o tempo - é uma oportunidade, um "take" que faz rodar outra vez, noutra perspectiva . " Acção!" Que obriga - posso sempre dizer "não" - a um "take" melhor para o fime se tornar naquilo que quero mesmo. E para quando se ouvir o "corta" à medida - o qual vem sempre inesperado - seja um "corte" que prolongue o fime no " the end" que ninguém de nós, que por cá anda, ultrapassou. Tarkovsky mostrou isto tão bem - aqui http://youtu.be/quoWpNljHRU?list=PLWvDlkE5aLvS5NGsjILCMpmt3_-qLg3vI.

A liberdade é um santuário. Mas a amizade verdadeira que recebo e dou é a que se antecipa a dar o que o outro precisa. Dizer: não vês o copo? Às vezes é à estalada, à auto-estalada também. Uma doce violência que é uma festinha gulosa. E lembro-me de Lobo Antunes e Herberto Helder. Podiam ter sido tantos. A Teresa, por exemplo, que agora foi para a escola e que me acendeu a primeira labareda.

Lobo Antunes
Um dia azucrinei-o na FLAD. Convidaram-me para ir ouvi-lo. Chegou a altura dos olhos, do olhar e do tocar. Foi no jardim. Tive então a certeza de estar diante de um homem que sabe até onde quer ir. Sabe pôr e tirar a "máscara" muito bem, quando lhe apetece e quando quer. Dotado de uma inteligência fabulosa sabe mais do que diz, e sabe que sabe que não diz tudo o que sabe. E isto, diante da angustiante e famosa folha branca, às vezes não tão branca como a pintam. Perguntei se o abismo de que falou na conferência era para saltar. Ele responde em silêncio com os olhos fixos em mim, e em quem me acompanhava, "mas quem são vocês?!" É que nós não lhe pedimos o autógrafo, ficamos para o fim, só para estar com ele. Só se pode saltar, disse eu, na certeza de que há uma mão que nos vai agarrar. Tal como no Hospital. O eu e o touro não estão totalmente sozinhos...

Não é preciso enrolar tanto, disse a certa altura, precisamos de ser "mais" crianças. Da simplicidade rápida e inteligente. De olhos impressionados - uma expressão da qual ele fez, aliás, um pequeno e certeiro exercício fenomenológico. O que mostra que o tempo pode ser um instante. Como cada cigarro que fumava enquanto falava, enquanto mostrava e escondia o olhar. É um touro de raça. Como um bom livro. A literatura - a vida - é afinal uma bela tourada.

Herberto Helder
Poesia não é quando um homem quer. Sim, nessa "carne" há mais, muito mais que o constitucional poético. Da minha parte li-te, reli-te, já fui à leitaria da Trindade mil vezes, e nada. A vida é simples, eu sei. E exige, por isso luta, certo. Dou sempre quase tudo. Nunca é demais. Por isso tenho a certeza que "vou por ai", embalada num cântico cheio de luz, que não é meu: é régio e não é "negro".

Pode o nosso grande poeta recusar-se a presentear-nos com uma conversa? (não me rala de públicos; como diz o Manoel de Oliveira, "públicos, só os urinóis"). Tanto pode que não dá. No outro Verão, numa capa de uma revista dos nossos jornais lá vinha o nosso Helder. "Uau, conseguiram!", pensei. Não. Era um artigo acerca do homem que se recusa - e com a sua liberdade - a dizer-nos mais do que aquilo que diz na sua poesia. Partilhará com os seus, e longe de mim achar que se pode invadir tal querida privacidade. E "não dará" nenhuma entrevista. "Então mato-me!", alguém terá dito. "Que se mate", terá comentado.

A poesia não é a resposta, mas também faz parte do jogo. Por isso eu acho que quem a faz como ninguém, hoje, tem o dever de nos dar uma prosa política, hoje. Dar tudo nunca é de mais. "Para que serve a vida se não for para ser dada?" (Paul Claudel). Espero que me leias, e se pensares "vai dar uma volta", acredita que vou, e feliz. Desiludida? Não. Só uma coisa me desilude. Mas essa não ta digo; em público, claro.

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