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De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.


17
Dez17

Xavier Beauvois em Almada

por Fátima Pinheiro

 

 

noite-de-natal.jpg

 noite de natal

 

O FILME “DOS HOMENS E DOS DEUSES” (de Xavier Beauvois, 2010) encerra o ciclo de Ciclo de Cinema Católico de Almada, hoje à noite

Trailer #1

Era uma vez sete monges católicos, trapistas, que viviam num Mosteiro fundado em 1938, em Thiberine, na Argélia. Foram assassinados a 23 de Maio de 1996 porque eram vistos como uma ameaça. Porquê? Porque viviam em boas relações com a comunidade local: participavam nas cerimónias religiosas muçulmanas, nas outras festas, vendiam os seus produtos, da mesma terra, nas mesmas feiras, conversavam estabelecendo relações de amizade, ajudavam a resolver burocracias (como preencher certos papéis, etc.) e tratavam, nalguns casos curavam mesmo, quem aparecia no convento e precisava. Incluindo terroristas, o que não era bem visto pelo exército local, que por várias vezes os intimidaram a sair do país. Um filme que podia ser uma arma de arremesso contra ideologias, ou ele mesmo um filme ideológico, ou um hino a uma pretensa atitude estóica de sete homens sem medo de nada nem de ninguém. Mas não. O filme é sim, antes de mais, sete histórias de sete conversões. Surpreende pela humanidade. Luc, o monge médico, está desde o início pronto para a “colheita”. No meio de um ataque de tosse, o seu “tudo bem” como resposta à pergunta de Christian, seu confrade e superior do mosteiro – “tudo bem?” -, quando em fila sobem o Atlas, escoltados para o matadouro, sob uma impiedosa neve que não lhe poupa a asma ( ele que curava mais de cem pessoas por dia …), é disso testemunha. Desde que o cerco começa a apertar, que todos pensam em partir dali para um lugar mais seguro. Chistian é o único que não o diz, parecendo ter ainda algumas dúvidas. Contudo, pela maneira como ele vai vivendo e conversando com todos, tudo indica que está também pronto, desde o início. Os lírios do campo estão no seu lugar e nada lhes falta. O fime cruza constantemente as “palavras” que cantam no convento – a liturgia – e as lutas intímas em que vivem o drama do dia-a-dia, no “tempo” das tarefas quotidianas e no “tempo” de oração contemplação. Percebe-se, num encadeamento de mestre, o que se une e o que está desunido entre palavra e acção. O realizador, sem ser crente, mostra a intimidade daqueles homens, que a oração não é “não acontecer nada”, mas “acontecer tudo” poque é no eterno diálogo com Deus, e entre si, que vivem a vida como dádiva e por isso, são fíes à sua vocação. É “rasgando”, ou abrindo, o seu “eu”, que aqueles homens abraçam, por se deixarem abraçar. Sem máscaras, sem cinismos. Vivem a circunstância, atentos ao que lhes é pedido fazer. A humanidade daqueles homens vem ao de cima nas conversas que cada um vai tendo, sobretudo com Luc e Christian. Todos se questionam e no final todos têm uma razão para ficar. Cheios de medo mas “sossegados”, em paz. Estamos aqui para viver, não para morrer, cada um o diz, à sua maneira, de sua própria boca. Várias vezes ao longo do filme, pensamos “é agora” que vai ser, a matança. Na noite de natal, por exemplo, o lider terrorrista invade o mosteiro e exige medicamentos. É-lhe dito, pelo superior, que eles tratam quem apareçe, e que a conversa é fora da casa, porque ali não entram armas. O muçulmano acaba por aceitar as condições e vai-se embora, após um belo diálogo (foto 1), que irá comprometer Christian, quando diante das autoridades argelinas – que lhe pedem para reconhecer, mais tarde, o seu corpo morto – ele, sem qualquer hesitação, e num sobressalto, o reconhece, afirmando que sim, que “é ele”. Christian baixa a cabeça, os olhos banhados, a persignação e as mãos cruzadas a rezar por aquele seu irmão, agora ali um cadáver. O olhar que lhe deita o oficial argelino marca-o (os) da forma que sabemos. Uns dias depois daquela noite de natal, e ainda o chefe terrorista vivo, eles voltam com o doente, e este é tratado por Luc. O que é visto, mais uma vez pelas autoridade argelinas, como os monges protegem e são protegidos terrorristas. Na última ceia, que antecede a captura, os “cisnes” já todos à mesa (incluindo um monge visitante, que tinha vindo trazer medicamentos, um livro, queijo, etc., e contar as notícias…), Luc vai buscar duas garrafas de vinho e põe, num gravador, a “abertura” de Taichkovsky. Todos se apercebem do que está a acontecer, e… para acontecer. A imagem, a música, os rostos, rolados pela câmara um a um, fazem um só bloco, e nada é dito. Ou melhor tudo é “dito”. 

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5 comentários

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De pitosga a 23.12.2017 às 19:28

Conheço 'o local' há pouco tempo.

Fátima Pinheiro, a Senhora tem um dom: saber contar (escrevendo, no caso).
Fico com pena de não ter visto o filme. Nem saber como o verei. Se possível, dê-me uma indicação, 'uma dica'.

Sou um velho (um idoso, um 'sénior') licenciado em Medicina que passou 50 anos a cuidar de pessoas — e não a tratar de 'exames'.
Para mim, a melhor definição da actuação de um Médico é a de William Osler: «Curar, raramente. Aliviar, muitas vezes. Consolar, sempre.»
Já lá vão uns cem anos!

Cumprimenta,
oliveira
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De Fátima Pinheiro a 23.12.2017 às 23:51

no youtube podemos encontrar pedaços do filme, que é realmente maravilhoso e onde o médico é um monge notável, e corresponde ao que você diz ser um médico. vou procurar saber onde se pode encontrar o filme completo.
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De pitosga a 25.12.2017 às 00:06

Grato pela sua 'dica' do Youtube. Foi útil.

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