Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

18
Jan16

Mahler: uma economia vital

Fátima Pinheiro

montanha.jpg

Gustave Carus (1824) 

imagem tirada da net

Para onde vou? Eu vagueio nas montanhas. Procuro repouso para o meu solitário coração - diz Mahler na sua "Canção da Terra". Ouvi-a há uns dias na Gulbenkian numa interpretação imponente sob a direção de uma batuta finlandesa: a talentosa maestrina Susana Mälkki. O compositor é porta de vidas, de futuro. Com uma filosofia bem definida e implícita, Mahler grita em coro com Nieztsche pelo "Sentido da terra". Marcam, cada um à sua maneira, a passagem para além do século XIX com sementeiras ainda por dar fruto. A criatividade só pode gerar criatividade. O semelhante conhece o seu semelhante (já dizia Empédocles, muitos anos antes de Cristo). Não é por acaso que as narrativas deste século não prescindem de usar a "economia" e a "ecologia" como palavras chave (no caso da ecologia lembramos que “oikos” significa “casa”, e “logia”, significa estudo; neste caso estudo da casa, tendo em conta o meio ambiente; estudo da Terra, uma casa na qual habitam diversas espécies, uma família).Contudo estes filósofos pisam mais que a superfície, vão no ontológico. Sem dúvida todos os saberes são fundamentais. Mesmo o saber inútil. Quem não o tem em conta habita uma casa inacabada, sem fundações. Álvaro de Campos disse-o como poucos: "É por um mecanismo de desastres, /Uma engrenagem com volantes falsos,/Que passo entre visões de cadafalsos /Num jardim onde há flores no ar, sem hastes"(in “Opiário”). O que digo hoje aqui é música. Querem ouvir?

Não é por isso por acaso que o Papa Francisco centra o seu discurso na economia que mata, no nojo que é a indiferença. E Manoel de Oliveira, enraizado no que vê, tem a Terra como tema central da sua filmografia. Dá à luz, entre outros, filmes como "O Pão", "Ato da Primavera", "Douro faina fluvial", "A Caça", e o último tem como centro "A energia".

Mahler, a semana passada? A música, que aqui evoco hoje, realiza memória, em cada nota, o lugar que é o coração. "A Canção da Terra" questiona esse "eu" de forma brutal e doce, harmoniosa e explosiva, abrangência total -chega a todos os lados-; a letra descreve e faz sentir montanhas, luas, mares, sóis, sombras, choro, alegria, dor, revolveres de terra. Ela é uma potência que fere, perfurando e desaparafusando.  Aquece as sombras que nascem ao pôr-se do sol por detrás das montanhas. É uma promessa que pede a minha liberdade. Seca ternamente as lágrimas e o riso que correm de a ouvir.

A cortante pergunta  solta-se a meio da Canção:  "Se a vida não passa de um sonho, porque toda esta fadiga e tormento?"

Que conto eu nestas linhas? Nada. Mas a mim desperta a alma. A Música forra de veludo a carne. A Filosofia de Mahler brota da terra, do mais intimo de mim. E resplandece o céu azul no horizonte, eternamente.

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

Links

imagens rasantes

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D