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Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

31
Dez17

É um livro ou um orgasmo?


Fátima Pinheiro

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A pergunta é feita fresquinha acerca de "A queda de um homem", que viu a luz do dia em Setembro. É, segundo o autor, Luís Osório, o seu primeiro romance. Então se deduz que entende que faz coisa nova em relação aos seus livros anteriores, e que tem a ideia de vir a fazer mais romances. Acabo de ler e escrevo a minha primeira impressão, e digo já que fico à espera de mais romances, embora neste caso o género seja indiferente. Pergunto então "É um livro ou um orgasmo?". Sim, diria o pai da fenomenologia.

Este livro é de quem tem paixão pela palavra. No Princípio era o "logos". Mas não se ficou nesse Princípio.  A Palavra continua e em estafeta é recebida por quem se deixa ao seu sabor.  E chega a mim. Não se lê de qualquer jeito. Livros como este são lidos de forma pessoal e intransmissível.

Qual é o tema do livro? Sou eu que, quando nele caí, me deixei ir. É uma voragem, um vulcão, um tango, muito choro, muita pergunta, muita promessa, positividade. Não interessa se é sonho, se vigíla, passado, presente ou futuro. É agora. Foste mesmo tu que escreveste? Somos nós,  sim. Também. E nada interessa senão a humanidade que nos esmaga e eleva. E quero lá saber quem é o poeta irlandês! Gosto é do poema! Não me digas que és também poeta! 

Um livro que é o escrever em ação, o eu em ação. Um roadsow de uma vida que são muitas ao mesmo tempo, onde tudo aparece casado e descasado, quente e frio. Uma foice e uma fonte onde nos perdermos e encontramos. E quem sou  eu para opinar?? quem? 

 

29
Dez17

Passas?


Fátima Pinheiro

 

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Ano novo, vida nova? Sambando 2018, "o que será, que será?" Repetir-se-á daqui a horas, mais uma vez, a "passagem de ano", que em tempos idos - lembrou Mircea Eliade - era sacralizada em rituais que eram como que o emergir do cosmos. Em celebrações tão agitadas quanto o caos era caos, para que assim se pudesse participar na ordem configurada pelos deuses, em desenvolvimento sustentado de eterno retorno. A mim também me convidaram para festas. Por outro lado, também oiço: "Prefiro a passagem de ano ao Natal"; "detesto a passagem de ano"; "eu fico em casa"; "ai, eu vou mas é divertir-me"; "passo a dormir", etc. Apesar de passar de ano todos os dias, pergunto-me nesta época de forma especial: "Passo ou não passo?". Ou, o que é o mesmo, foi mais o ano que passou por mim, ou quero mesmo passar para o "novo", que também virá no ano que "vem"? Ou não? É o tempo e o seu significado que aqui estão implicados. Festas à parte, este tempo serve, como todos os minutos, para alguma coisa? Saramago, pouco antes de morrer: "Pilar, encontramo-nos noutro lugar!". Pregados nas cruzes, Cristo ao bom ladrão: "Estarás hoje comigo no Paraíso!" Pascal: os dias são para se encontrar no comboio que é a vida, o que falta no bilhete perdido, a sua origem e o seu destino. Platão, dos escravos agrilhoados na Caverna: cada um terá que virar a cabeça "por si próprio" e sair para fora. Krishnamurti: quero viver uma vida em segunda mão, como quem olha para uma montra? Ou em dizeres nossos: levas a vida a ver passar navios; passará, passará, mas algum deixará? Maria "vais com as outras"? Maria Ulrich lembrava às suas alunas - futuras educadoras de infância - que a liberdade é um bem tão precioso que nem Deus se atreve a tocar. Encontro-me na vida sem nada ter feito para isso, mas posso fazer dela, nas circunstâncias que me são dadas viver, o que a minha força, a minha inteligência e o meu coração, "se puserem a jeito". Como aqueles dois homens que trabalhavam no tempo do gótico e do romano, responderam a quem lhes perguntou o que faziam. Um disse: "Acarto pedras". O outro: "Construo uma catedral". Passas ou não passas? Eu vou comer 12 às 12, faço uma festa, convido os amigos e vou decidir "existir". Ou protagonistas ou nada. É a escolha entre agitação e movimento. Se não for a mãe da frente, é o filho lá de trás.

28
Dez17

Estive a 5 metros de Churchill!


Fátima Pinheiro

 

 

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 "Darkest hour"  é o filme. Gary Oldman: que papelão! Puseste-me a a uns metros de Churchill. Juro que não sabia que eras tu. Eu sou muito má para nomes e para os novos actores. No fundo sou um bocadinho ignorante. E tu não és um novo actor. I

Isto não te serve para nada, mas quero dizer-te que passaste a estar na minha constelação.

Ontem escrevi aqui sobre o humor. Até nisso encarnaste na perfeição o teu homem. Ser actor: é tu desapareceres e ali é só Winston Churchill. Quem é  Gary Oldman?

27
Dez17

O que faz o Humor?


Fátima Pinheiro

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Há quem tenha sentido de humor. E há quem o saiba "fazer".  O rir pode ser sinal desse humor. Tudo se pode passar sem que se tenham grandes conversas sobre o assunto. O que é certo é que cada um sabe os diferentes tipos de riso que ri. E ainda mais certo é que rir faz bem. É muito bom. E mais: o meu rir revela-me.

Há quem ria da desgraça alheia. É verdade, não vale a pena negar o facto. Até as crianças. Mas há também o livre e belo rir das crianças: sincero, espontâneo, gratuito. E há quem tudo faça para fazer o outro passar de triste à alegria de um sorriso de pessoa consolada. Até no facebook. E porquê? Esta é para ti: qual é o oposto do rir?

O oposto do rir não é o chorar. O oposto é o sério no seu lado B. O sério no seu lado A é o experimentar o riso que as coisas trazem. Por isso o humorista é o que vê o avesso e o direito. São raros os humoristas. Sabem provocar até uma gargalhada.

Posso não ter esse talento mas posso reagir a um humor talentoso e trabalhado. Sim o humorista trabalha o talento. O mesmo se passa com todos os talentos. O humorista não procura nada em troca mas é recompensado se é correspondido. Refiro-me aos profissionais e aos amadores. Sim, na família, nos amigos, há quase sempre um que foi feito para isso. Para animar. Como sabem, "animar" tem a mesma origem de "anima". Animar é dar alma. E vem este tema, agora no Natal e na Passagem de ano. Não será por acaso. Vamos rir? Ganhar e fazer ganhar alma? Sim. 

 

26
Dez17

O Papa Francisco é muito esperto!


Fátima Pinheiro

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 Dryer, A palavra

 

O Papa Francisco está sempre com ideias giras e inovadoras. Agora foi neste Natal. Isto vem ao encontro de conversas que temos em todos os Natais. Afinal quando é que é o Natal? Foi ontem? É quando um homem quer? E haverá mesmo Natal? Quando há tanto desentendimento acerca do seu significado, não seria melhor arranjar nomes diferentes para cada um desses significados? O que é certo é que o Natal anda na baila. Todos falamos dele. E cada um de nós é que está certo.

As conversas sobre o Natal dão-se, em geral, antes da Noite de Natal. Umas prendem-se aos kilinhos a mais que vamos ter, e que no começo de ano é que é a ginástica. Outras vão mais longe e sentencia-se o universal: "o mais importante é que haja saúde". Outras conversas entram por discussões acerca da Igreja. E vem o rol do costume: os padres pedófilos, a riqueza e ostentação do Vaticano, a veracidade dos Evangelhos, já conhecemos. E outra sentença: os valores é que interessam. E a inquisição, o ser contra as afirmações da mais pura ciência, tudo da Igreja Católica se diz.

Como se os valores não fossem universais, como se os homens da Igreja - que é um instrumento humano do divino - não fosse suposto errarem. E quanto  à ciência passa-se um pano sobre o facto de ter sido um físico católico a descobrir a teoria do Big Bang, aceite hoje universalmente. E haveria aqui muito para dizer. Ainda bem que isto não acaba hoje.  Acho eu.

O Papa Francisco pega numa verdade milenar e di-la à sua maneira: "O Natal é todos os dias". E partir daqui começa o con-fronto. Não é a vida uma constante  luta para todos? Mesmo para os que dizem que já desistiram...

Desejo Bom Natal para todos, certa de que "a luta continua".

25
Dez17

Serei a couve do Natal?


Fátima Pinheiro

 

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https://www.publico.pt/2015/12/24/sociedade/opiniao/serei-a-couve-do-natal-1718328

Evitemos a tentação de vegetarmos na existência; e atiremo-nos antes a ela, com toda a liberdade, o empenho e a afeição.

 

Três Conversas com Eduardo Lourenço é o meu recente livro, saiu a semana passada. Estamos no Natal e o livro fala de couves. Por isso escrevo este artigo, que é o meu presente para estes dias e noites, mais ou menos felizes ou santos. E adianto já que não quero ser a couve. Umberto Eco espantou-se um dia — contaram-me anteontem — pelo facto de os seus netos não saberem o que era o presépio. Eu já nada me espanta. Não é tudo à la carte? Uma cambada de couves é o que felizmente somos. Mas a luta não é minha. Meu só a liberdade. Poderá haver mellhor?

O livro nasceu de um encontro improvável. Não nos conhecíamos. Admirava-o. Cruzámo-nos numa recepção, abordei-o e o pensador ouviu-me. Achava-o hermético, ele foi simples. E alguém sugeriu: passem a livro! Falámos de tudo: fé, razão, Europa, família, educação, filosofia e arte, vida e morte. Como se fosse a primeira e a última vez. “Discernir é o grande problema”, diz o pensador a dada altura. O meu presente de Natal é assim lembrar, lembrar-me, a alternativa que se põe com mais agudeza e ternura no Natal. Nestes encontros e reencontros de família, ou de quem não a tem, mas tem abraços a dar e a receber. É tudo uma questão de decisão. Ninguém escapa ao milenaríssimo fio da navalha que é também um fio de chocolate quente a regar o melhor sonho da noite. E dum embrulho, vamos lá saber a história.

Lourenço, como sempre, é brilhante. Afirma a páginas tantas: “Em função do que ainda não existe, do tempo do futuro, a gente dá um passo e nessa acção é que nós nos humanizamos, é que nós ultrapassamos as barreiras. Ultrapassamos barreira e barreira, e atingimos um objectivo. Damos um outro passo. A vida é feita desses passos contínuos, uns atrás dos outros, mas nenhum está pré-determinado. Se não déssemos um passo, ficávamos pa­rados num sítio, como um legume.

Desembrulho então o meu presente, e ponho a parada como se segue. Um dos grandes contributos que a leitura da obra e o conhecimento da pessoa de Eduardo Lourenço nos traz é o desejo de darmos este passo: evitarmos a tentação de vegetarmos na existência; e antes atirarmo-nos a ela, com toda a liberdade, o empenho e afeição.

21
Dez17

Catolicismo nu e pornográfico.


Fátima Pinheiro

 

 

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 Catedral de Nôtre Dame, Paris, tm Rasante

 

Ler. Livros de natal e os que sairam agora. O livro "Testemunhas de um  facto", do Pe João Seabra, põe a nu o cristianismo. É mesmo pornográfico. Ou seja,  fala do que lhe aconteceu no "encontro com Cristo". "Neste título vibra o âmago do Cristianismo, a sua irredutibilidade como Acontecimento central da História da Humanidade. Tudo o mais que se refere à vida cristã, valores, gestos solidários, moral, doutrina, brota do Facto, esse Facto acontecido há dois mil anos que celebramos em cada tempo de Natal e de que somos Testemunhas". (Tenacitas 2017). 

Um livro que não se põe de cócoras diante dos considerados bons costumes, os  que consideram  o  natal um tempo assim  fofinho, etéreo, tipo ONU, valores e votos de ano novo. Novo?

20
Dez17

E para as mulheres com mais de 50 anos à procura de uma luz?


Fátima Pinheiro

 

Sem-chama-Eletr-nico-LEVOU-Vela-Bruxuleante-Tealig

 

Ando a comprar livros para oferecer no Natal. Por acaso este ano não estamos nada mal. Mas estranhei não ver nada de Paulo Coelho. Foi anteontem num belo jantar. Uma das convivas, minha amiga, definiu o escritor brasileiro Paulo Coelho com a frase do título deste post. Um dos homens presentes disse logo que não era assim. Que ele, o membro da Academia Brasileira de Letras, é "fenómeno" para muitos homens também. E eu?

Pois acho que Paulo Coelho não se reduz àquela "etiqueta". Conheço bem os seus livros, sou uma mullher de mais de 50, e em tudo o que vejo - como no meu último post é evidente -, interessa-me a luz. Mais, como gravei em mim a semana passada, as etiquetas não nos levam longe. Não nos centram no essencial, escorregam-nos para pormenores que distraem, enfim, nisto sou como S.Paulo: o que me interessa é pesar tudo e reter o que importa. E venho eu agora com esta conversa? É para gozar bem o dia. Nisto estou com Jorge de Sena e as suas "luzes bruxuleantes", isto é, pessoalmente, não me convencem nada as pequenas luzes bruxuleantes…e andam por aí tantas… verdadeiras aldeias de lamparinas noctívagas…Luz é Luz! Só pode ser grandiosa, intensa, viva, contagiante, envolvente. Pequenas luzes bruxuleantes não passam de reflexos de outras coisas…ou então são daquelas que moram em árvores de Natal de plástico…Com luzes destas anseio por buracos negros… escuridão total! E Paulo Coelho? Tenho escrito sobre o que penso da sua obra. Não vou repetir. Mas seguramente não o reduzo a uma etiqueta, embora haja quem o faça e o use como tal. O que interessa é avaliar o que me interessa. Pode até nem me interessar verdadeiramente nada. Ou interessa?

19
Dez17

A birra do natal...


Fátima Pinheiro

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Todos sabemos o que é uma birra. Tive muitas enquanto criança, e volta não vai, mais uma birra. Eu quero, e pronto. E quero agora. Pois com o natal é a mesma coisa. O natal é quando e como eu quiser. E pronto. Era o que faltava um natal de um Deus que resolveu vir quando quis, onde quis e como quis. Há uns anos, duas gerações para trás, ou por aí, não se questionava assim abertamente. É bom este tempo de transparência. Agora, transparência é uma coisa, rebaldaria, ignorância e preguiça são outra. Importa uma abertura que não feche os olhos ao que verdadeiramente importa.

Há umas gerações atrás quantas rabanadas e jesuses de formalismo!!!!! Hoje sim, hoje é que é: rabanadas & Company, "construa o seu próprio sonho, 5 ingredientes, e extras", os meus, os teus, os nossos, o amor é que é, enquanto dura. Todos sabemos a história. O verbo sentir e o verbo gostar nunca foram tão conjugados. Como se o amor fosse uma questão de gelados e assim. As formas, os gestos, a cor do cabelo, o género, à la carte, natal é quando "x" quizer. À medida, se e quando der jeito. Restam alfaiates digitais, e um rol de nomes e presentes ou lembranças a cumprir , aqui sim escrupolsamente.

Quase me apreendo pré-histórica ao escrever este post. Como se tivesse sido eu a falsamente ignorar que afinal é tudo do zero.

Sim, o pinheiro, o céu, os montes e vales, tudo é feito por mim. Tudinho. Dos ovos, aos perús e aos vinhos. Até inventamos o bacalhau! Não houve um carpinteiro chamado José, nem um Pilatos romano. Tretas de uns tótos, que insistem em ser realistas. 2000 anos de maluquinhos  a darem a vida por uma trapalhiçe. Por uma rabanada comme il faut.

17
Dez17

Xavier Beauvois em Almada


Fátima Pinheiro

 

 

noite-de-natal.jpg

 noite de natal

 

O FILME “DOS HOMENS E DOS DEUSES” (de Xavier Beauvois, 2010) encerra o ciclo de Ciclo de Cinema Católico de Almada, hoje à noite

Trailer #1

Era uma vez sete monges católicos, trapistas, que viviam num Mosteiro fundado em 1938, em Thiberine, na Argélia. Foram assassinados a 23 de Maio de 1996 porque eram vistos como uma ameaça. Porquê? Porque viviam em boas relações com a comunidade local: participavam nas cerimónias religiosas muçulmanas, nas outras festas, vendiam os seus produtos, da mesma terra, nas mesmas feiras, conversavam estabelecendo relações de amizade, ajudavam a resolver burocracias (como preencher certos papéis, etc.) e tratavam, nalguns casos curavam mesmo, quem aparecia no convento e precisava. Incluindo terroristas, o que não era bem visto pelo exército local, que por várias vezes os intimidaram a sair do país. Um filme que podia ser uma arma de arremesso contra ideologias, ou ele mesmo um filme ideológico, ou um hino a uma pretensa atitude estóica de sete homens sem medo de nada nem de ninguém. Mas não. O filme é sim, antes de mais, sete histórias de sete conversões. Surpreende pela humanidade. Luc, o monge médico, está desde o início pronto para a “colheita”. No meio de um ataque de tosse, o seu “tudo bem” como resposta à pergunta de Christian, seu confrade e superior do mosteiro – “tudo bem?” -, quando em fila sobem o Atlas, escoltados para o matadouro, sob uma impiedosa neve que não lhe poupa a asma ( ele que curava mais de cem pessoas por dia …), é disso testemunha. Desde que o cerco começa a apertar, que todos pensam em partir dali para um lugar mais seguro. Chistian é o único que não o diz, parecendo ter ainda algumas dúvidas. Contudo, pela maneira como ele vai vivendo e conversando com todos, tudo indica que está também pronto, desde o início. Os lírios do campo estão no seu lugar e nada lhes falta. O fime cruza constantemente as “palavras” que cantam no convento – a liturgia – e as lutas intímas em que vivem o drama do dia-a-dia, no “tempo” das tarefas quotidianas e no “tempo” de oração contemplação. Percebe-se, num encadeamento de mestre, o que se une e o que está desunido entre palavra e acção. O realizador, sem ser crente, mostra a intimidade daqueles homens, que a oração não é “não acontecer nada”, mas “acontecer tudo” poque é no eterno diálogo com Deus, e entre si, que vivem a vida como dádiva e por isso, são fíes à sua vocação. É “rasgando”, ou abrindo, o seu “eu”, que aqueles homens abraçam, por se deixarem abraçar. Sem máscaras, sem cinismos. Vivem a circunstância, atentos ao que lhes é pedido fazer. A humanidade daqueles homens vem ao de cima nas conversas que cada um vai tendo, sobretudo com Luc e Christian. Todos se questionam e no final todos têm uma razão para ficar. Cheios de medo mas “sossegados”, em paz. Estamos aqui para viver, não para morrer, cada um o diz, à sua maneira, de sua própria boca. Várias vezes ao longo do filme, pensamos “é agora” que vai ser, a matança. Na noite de natal, por exemplo, o lider terrorrista invade o mosteiro e exige medicamentos. É-lhe dito, pelo superior, que eles tratam quem apareçe, e que a conversa é fora da casa, porque ali não entram armas. O muçulmano acaba por aceitar as condições e vai-se embora, após um belo diálogo (foto 1), que irá comprometer Christian, quando diante das autoridades argelinas – que lhe pedem para reconhecer, mais tarde, o seu corpo morto – ele, sem qualquer hesitação, e num sobressalto, o reconhece, afirmando que sim, que “é ele”. Christian baixa a cabeça, os olhos banhados, a persignação e as mãos cruzadas a rezar por aquele seu irmão, agora ali um cadáver. O olhar que lhe deita o oficial argelino marca-o (os) da forma que sabemos. Uns dias depois daquela noite de natal, e ainda o chefe terrorista vivo, eles voltam com o doente, e este é tratado por Luc. O que é visto, mais uma vez pelas autoridade argelinas, como os monges protegem e são protegidos terrorristas. Na última ceia, que antecede a captura, os “cisnes” já todos à mesa (incluindo um monge visitante, que tinha vindo trazer medicamentos, um livro, queijo, etc., e contar as notícias…), Luc vai buscar duas garrafas de vinho e põe, num gravador, a “abertura” de Taichkovsky. Todos se apercebem do que está a acontecer, e… para acontecer. A imagem, a música, os rostos, rolados pela câmara um a um, fazem um só bloco, e nada é dito. Ou melhor tudo é “dito”. 

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