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Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo (Ef 4, 23-24).

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

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08
Out17

Como se vive o "agora"...


Fátima Pinheiro

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Ao encontrar algo belo digo a quem está perto: olha, que beleza; e aponto com o dedo, se for caso disso. Em tempos encontrei-me com um budista a sério, um Mestre. Por acaso esta frase é estúpida. Encontrei-me, sim, com uma pessoa. Uma Beleza. Por isso aponto para ele e para o Centro que fundou em Sintra: Georges Stobbaerts.

Este homem sempre me  "acompanhou" porque sempre fiz yoga nos seus centros; era uma assistente fabulosa que dava as sessões. Era hata yoga, uma prática muito boa, secular. Não se confunde com religião, embora seja um re-ligar; do "eu" consigo mesmo. Há uns anos que deixei, mas dou por mim a fazer os exercícios. Desde o respirar (às vezes esquecemo-nos...), ao corrigir a postura, a concentrar-me com mais facilidade, etc. Posso dizer que Stobbaerts tem estado sempre presente.

Do encontro que tive com ele  - umas semanas antes de ele morrer  - fiquei a experimentar o que nunca tinha experimentado e hoje partilho. Sendo eu católica e ele budista, foi a nossa diferença, vivida na raíz, que permitiu abraço tão belo. Abraço que "ficou". Pensava eu que o budismo era desencarnado. Verifiquei que vivido na profundidade e sabedoria de Stobbaerts, no estar com ele, nos encontramos no mesmo Mistério da Vida. Mais do que palavras, é a "carne" que conta. Uma Presença que está, que Acontece e nos rega no momento. Momentos assim são eternos: o céu é mesmo a verdade das coisas, dos "agoras". O Centro que dirige e construiu com as suas próprias mãos - e mãos amigas da região e do Norte de Portugal - fica na Várzea de Sintra. Tinha tanto para lhe perguntar. Soube-me a muito, por isso foi pouco. Mudou-me.

O que mais me impressionou foi o facto de ele viver o "presente". É um homem pleno. E aumentou-me o desejo de ser assim: nem fugir para o passado, nem sonhar o futuro. Estar com ele e ver que ele vive "assim", foi como se ele me tivesse pegado um vírus. Perguntei-lhe a certa altura - na "entrevista" que partilho - como é que se vive o presente. Respondeu: "experimenta"; "para viver o presente é preciso praticar" Ontem já "fiz" mais "assim". É um murro no estômago. Estando mais "presente", estou no dia num silêncio que me faz ver melhor. Há um esforço da minha parte, mas tudo se torna mais simples, porque exige "apenas" atenção ao que Acontece. E as reações que tenho são acções de uma liberdade procurada e procurante.

O problema da nossa sociedade é que não pára, não dá lugar à "atenção" ao "eu", e cai no superficial. Descuido o meu "eu". O yoga "serve" para que me encontre comigo mesmo; não para mudar o mundo. Eu já sabia tudo isto, mas o que impacta é ver alguém que vive o que diz. Stobbaerts vive o presente, vê-se que está diante de uma Presença que ele diz desconhecer, mas sabe que o transcende. Por isso o encontro de si consigo mesmo é o segredo. A começar com a humildade, que é "a coisa mais bonita" que há. E apesar de me ter dito que infinito e finito são o "mesmo", eu vi que uma coisa é ele, outra o mistério da Vida, que nos transcende a ambos. Nós não nos pertencemos a nós, nem a ninguém, mas ao Mistério da vida, que é uma procura de vida, permanente. Felicidade, plenitude, serenidade, experimento. Fiquei de aprofundar o que é essa Presença; vou voltar porque o melhor da vida é mesmo a vida. E ali encontrei um homem "vivo". Que dirige o seu cavalo: uma história que ele contou, está na entrevista, e diz que "era uma vez um homem que cavalgava e alguém lhe perguntou para onde ia...".  Não pode ir no sábado ao Encontro TenChi - Sintra, sobre o tema "Escutar o Gesto". Mas decidi voltar ao Centro. Stobbaerts está sempre lá, mergulhado calmamente no "presente" e a partilhar a sua vida. Nos livros que publica e na Vida do centro, que se multiplica em momentos que podem levar cada um a encontrar-se consigo mesmo. Porque ele Vive. Por isso, misteriosamente, a Presença não pode não ter um Nome e um Rosto, humanos. Paradoxalmente é então aquilo que nos separa, aquilo que principalmente, nos une. Somos agora amigos. E com a forte palavra "amigo" quero significar o que Cristo diz aos que o seguem: Já não vos chamo servos, chamo-vos amigos porque um servo não sabe o que o Senhor faz. Foi por isso que Stobbaerts - que diz que não é um mestre mas um debutante - no meio do meu bombardeamento de perguntas, e num momento em que nelas me perdi, com um sorriso sereno e terno, constatou e prometeu: já vi que você às vezes perde-se,... é preciso estar presente; mas não vai se perder mais na sua vida. Ele lá sabe. E convidou-me a voltar "nem que seja só para respirar".

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