Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

16.11.17

Há dois tipos de pessoas


Fátima Pinheiro

12647180_1088816911169735_3493596200924374890_n.jp

       TM Rasante

 

Revi nestes dias três entrevistas a pessoas que me interessam. O entrevistador, era o mesmo. Na segunda-feira fui ouvir Eduardo Lourenço, na Gulbenkian, numa conferência sobre o tema Haverá lugar para Heterodoxias? E há aqui um ponto de convergência que se tornou claro para mim, bem como a redescoberta do que é saber entrevistar. E uma grande conclusão, que mais uma vez reapreendi, que é a palavra que me "diz" mais. Eu já sabia, mas experimentei mais uma vez.

Há dois tipos de pessoas: as pessoas discurso e as pessoas presença. A vida passa por mim e vou apreendendo a reconhecê-las. E mesmo quando cada um destes tipos têm laivos do outro, acaba por imperar ou uma ou outra. Em relação ao que vi nestes casos que referi não tenho dúvidas: dois discursos e três presenças. O discurso pode ser lógico, interessante e ortodoxo, mas reduz-se a uma lógica demagógica, corriqueira e asfixiante. Perde assim até o direito a ser chamado de discurso na verdadeira acepção da palavra, sendo apenas a cassete de sobrevivência. E por incrível que pareça, vende.

Com as pessoas presença é diferente. O tempo pára, elas têm olhos e olhar.  A entrevista e o grande plano deixam ver. Revelam. É como estar ao vivo com as pessoas e ao fim do dia lembro, como se fosse agora. E sorrio. Aí soa então bem fundo a palavra que mais me diz. Que me realiza. Já estão a ver qual é? E todos os dias soa mais. Todos os dias é como se fosse diferente. Não é cassete, realiza!

Uma boa entrevista? É saber entre vistar. É saber, quanto baste, antes de enfrentar o entrevistado. Trabalho, mais trabalho de casa, que inclui o trabalho da própria vida de quem pergunta. E nesse entre ter, mostrar na cara e no corpo, o bicho que está na berlinda. No que está gravado  - no gravador e na memória do coração - podemos andar para a frente e para trás (chama-se  silêncio, meditar, recolher, recuar para avançar, tempo ao tempo).

No caso, o entrevistador foi sempre o mesmo. E nas entrevistas que revi, vi de tudo. Numa delas porém vi dois homens.

De Eduardo Lourenço já aqui disse tudo. Ele, o homem das heterodoxias, é um ortodoxo, como lembrou no outro dia. A humanidade tem a vocação da verdade. Não a da verdade opressiva, mas a da verdade positiva, que liberta. Foi o que revi há dias naquela entrevista, dois homens desarmados, sem rede, a mostrarem-me quem sou. Uma arte.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

2 comentários

Comentar post