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Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

17
Ago15

Quem me dera um Físico assim!


Fátima Pinheiro

 

vamos a isto/ imagem tirada da net

 

Hoje acordei de um regresso ao passado. Sonhei com um Físico que estava sentado na primeira fila a ouvir-me a discursar assim:

« A Física é um esforço intelectual ímpar em que toda a humanidade se tem envolvido há séculos.

Na verdade, pode mesmo dizer-se que é um esforço intelectual milenar pois desde a remota Antiguidade até aos nossos dias os homens têm tentado incessantemente compreender os mistérios mais profundos da realidade que os rodeia.

A Física é, sem dúvida, um dos maiores empreendimentos intelectuais na história da humanidade.

Em certo sentido a Física ocupa um lugar único entre todas as ciências. Nenhuma outra ciência conseguiu combinar até hoje, de forma tão profunda e tão frutuosa, a relação entre observação da natureza e aplicação de técnicas matemáticas.

Nenhuma outra ciência conseguiu tantos sucessos, tantas respostas para as perguntas com que se debatia.

É, pois, compreensível que a Física se tenha tornado num modelo que muitas outras disciplinas científicas têm pretendido imitar e, ao mesmo tempo, que a própria designação “Física” se tenha tornado sinónimo de um conhecimento certo, seguro e rigorosamente fundamentado e testado.

Isto não significa que a história da Física tenha sido uma serena história de acumulação de saber. Pelo contrário. Foi sempre uma história pautada por debates e polémicas, foi sempre uma história humana, com toda a paixão da alma humana.

Na verdade, como todos sabemos, alguns dos mais profundos e vivos debates intelectuais que afectaram a história da humanidade, nasceram de polémicas em torno de assuntos de Física e o facto de esses debates terem influenciado outros âmbitos culturais, artísticos, filosóficos e religiosos, é uma confirmação da excepcional importância da Física (...)

Conjunto de princípios básicos que unem todos os físicos e que constituem como que os fundamentos epistemológicos desta ciência:

  • que a razão humana é capaz de superar mesmo as interrogações mais perturbadoras;
  • que a natureza é compreensível;
  • que a matemática é fonte de saber seguro sobre o mundo natural;
  • que a observação, a experiência é, como diziam os navegadores portugueses do passado, “ a mãe do conhecimento”.

 O extraordinário sucesso da Física não é apenas uma fonte de regozijo que vem do passado; é uma fonte de esperança para o futuro.

Mas todos os empreendimentos humanos têm um lado mais obscuro. Precisamente no século XX, quando os progressos e conquistas da Física atingiam um desenvolvimento nunca igualado, os físicos viram-se a braços com graves dilemas éticos.

Saber é verdadeiramente uma forma de poder e muitos físicos sucumbiram, e sucumbem ainda hoje, a usar o seu saber ao serviço de poderes muitas vezes totalitários.

Tudo isto exige dos físicos uma elevada responsabilidade moral, e todos esperamos que o Ano Internacional da Física sirva para sensibilizar, sobretudo os mais jovens, para a responsabilidade que vem com o conhecimento.

Mas aqui temos bons motivos para celebrar com alegria: a história da Física é muito mais a história do conhecimento que foi posto a bom uso, do que o contrário.

Toda a investigação nasce sobretudo do desejo de satisfazer a curiosidade, mas é natural que depois os resultados dessa investigação sirvam para resolver problemas, por vezes problemas prementes, aumentando a duração da vida humana.

O progresso material que a Física gerou é de uma tal dimensão que é impossível de contabilizar. Temos razões fundadas para acreditar que o progresso da Física ajudará a resolver muitos problemas que hoje afligem os povos e as sociedades do nosso tempo.

Como conclusão, partilho a convicção de que a Física proporciona uma base significativa para a compreensão da natureza, proporciona aos homens e mulheres os instrumentos para construir as infra-estruturas científicas essenciais ao desenvolvimento; e a convicção de que a investigação na Física e as suas aplicações foram e continuam a ser uma importante força motriz dinamizadora de desenvolvimento científico e tecnológico.

A Física é um pilar fundamental da cultura contemporânea, que não pode ser substituído nem removido. Promove, pois, o bem-estar de toda a humanidade.

Depositamos a nossa esperança na Física e na Ciência no sentido de poder encontrar as soluções para os muitos problemas que afectam as sociedades modernas.

Portanto, estamos profundamente preocupados com a auto-exclusão dos jovens em relação à Física, não só porque os físicos desempenham um papel insubstituível nas sociedades baseadas no conhecimento, mas também porque o fenómeno da auto-exclusão se está a alastrar para as áreas afins da Ciência e Tecnologia(...).

Possa Einstein trazer o entusiasmo pela Física ao público em geral e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiros.

Muito obrigada.» [Pedro Sampaio Nunes, Discurso Inaugural do Ano Internacional da Física, 2005]

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