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Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

09.07.18

Dizem que sou intolerante e pretensiosa


Fátima Pinheiro

 

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"Num mundo pluralista como o nosso, onde pessoas de tantos credos, e até sem credo algum, têm de conviver na mesma cidade, o homem religioso é tolerado apenas se for o homem do puro desejo, da procura e da intranquilidade; já aquele que diz ter encontrado Deus e tirar daí certezas será, nesta perspetiva um perigoso fundamentalista, um pretensioso incapaz de conviver com quem não partilhe a sua fé. Pensa-se que a pessoa com certezas é uma pessoa resolvida que já não pede mais, e desconfia-se de quem tem respostas. Mas será que isso faz sentido?(Duarte da Cunha, Desejo e Encontro, Principia, 2018, p.15). Em «Desejo e Encontro», o Pe. Duarte da Cunha desconstroi esta outra pretensão do relativismo. E testemunha argumentando que encontrar é viver e não morrer.

Encontrar  o sentido da vida não é parar, mas sim o começo de uma aventura que não pára, uma aventura de Amor. Deus é Amor, e não se confunde nem com os gnosticismos que limitam Deus aos meus pensamentos, nem com os pelagianismos que põem a mola da ascese na força da vontade, prescindindo da força de Deus. O Deus que encontrou o autor deste livro é mesmo transcendente. Mas sendo transcendente é encontrável aqui e agora. 

 Por isso este livro é um must, "corresponde à necessidade de uma transmissão da fé católica e dos seus fundamentos que responda aos anseios mais profundos do coração humano  conduza ao mais significativo dos encontros: o encontro com Deus. Somos seres finitos em busca de um infinito. Vivemos no tempo e desejamos a eternidade. Para nos satisfazer não nos basta uma qualquer coisa finita, por muito intensa que a experiência de a encontrar possa ser. Esta procura de Deus é como um grito que está dentro de nós. Como algo que nos inquieta e nos obriga a perguntar, a investigar e a seguir aqueles que de algum modo dão sinais de conhecerem o caminho. Jesus Cristo é a verdadeira resposta às exigências do coração do Homem. O nosso desejo não repousa no vazio. E Jesus não é só uma ideia ou um mito – é uma Pessoa divina que a certa altura da história Se fez carne. A fé cristã enraíza-se num acontecimento da história. Um acontecimento que introduz na história o eterno, que vence a morte e se torna presente em toda a história. Jesus permanece vivo e encontrável, depois de ter morrido na cruz e de ter ressuscitado, precisamente através do povo que é o seu corpo, ou seja, da Igreja. ".

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

21.12.17

Catolicismo nu e pornográfico.


Fátima Pinheiro

 

 

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 Catedral de Nôtre Dame, Paris, tm Rasante

 

Ler. Livros de natal e os que sairam agora. O livro "Testemunhas de um  facto", do Pe João Seabra, põe a nu o cristianismo. É mesmo pornográfico. Ou seja,  fala do que lhe aconteceu no "encontro com Cristo". "Neste título vibra o âmago do Cristianismo, a sua irredutibilidade como Acontecimento central da História da Humanidade. Tudo o mais que se refere à vida cristã, valores, gestos solidários, moral, doutrina, brota do Facto, esse Facto acontecido há dois mil anos que celebramos em cada tempo de Natal e de que somos Testemunhas". (Tenacitas 2017). 

Um livro que não se põe de cócoras diante dos considerados bons costumes, os  que consideram  o  natal um tempo assim  fofinho, etéreo, tipo ONU, valores e votos de ano novo. Novo?

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

24.08.17

Não quero um catolicismo às mijinhas!


Fátima Pinheiro

 

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Prefiro substantivos a adjectivos. Ser católico significa ser humano. Eu não inventei o catolicismo e por isso ao encontrá-lo tenho o prazer de o ir descobrindo. E cada dia verifico a sua beleza e a sua eficácia, por muito que acontecam coisas que parecem contradizer o que acabo de dizer. Não adianta dizer que uma coisa faz bem se não a experimento. E disto não se sai. E dizem-me: é bom para ti, para mim pode não ser. Ou pior, dizem-me: isso não é bom para ti! E nasce um bloqueio. Não estamos a falar da mesma coisa. 

Ser católica é expermintar uma felicidade sem igual. O catolicismo, mesmo na sua ignorância, e mesmo por causa dela, dá a resposta mais completa aos problemas humanos. O catolicismo tem uma pretensão como nenhuma outra. E eu, como não quero nada às mijinhas, decididi um feliz dia meter-me a caminho. Aconteceu- me. A única coisa que então fiz foi ser livre de seguir. É o que continuo a fazer. Não me queiram cortar as asas. Não conseguem. Vivam pedaços de Catolicismo, não me impinjam um catolicismo raquítico e cegueta, de conveniências. 

Ser católico é saber O Catecismo. Isto vale mesmo para quem não sabe ler. Mas saber de experiência feito, não de bocas foleiras e virgens ofendidas. Obra feita, quero dizer. Se eu disser Madre Teresa ou Papa Francisco, percebe-se, verdade?

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

22.10.15

As "Confissões" de Jorge Silva Melo


Fátima Pinheiro

imagem tirada da net

 

Eu tento ser católico, apostólico, romano, disse ontem o encenador na Capela do Rato. Não são "Confissões" a uma nossa e querida Maria João Avillez, que conduz o ciclo de Conversas com o título "Deus", e vai trazer Marcelo, Maria de Belém, Fernando Santos e outros. O Pe Tolentino Mendonça (que acaba de receber mais um prémio literário, desta vez italiano) abriu com chave de ouro esta sua iniciativa. Jorge foi um crisóstomo para aquela sala cheia, que também tem muito que falar, sob o olhar de uma estátua de uma Nossa Senhora linda, num fundo laranja e azul, que prende e solta. O que confessou este homem que se apaixonou bem cedo por Deus? Como S.Agostinho, confessou aos homens a sua experiência de que é preciso gritar bem do fundo de si o desejo de felicidade.

 

Foi a Companhia de Amor e Perdão que o cativou.  É muito melhor "Maria vai com as outras", como é muito melhor "torcer que quebrar" (lembrou o  que o Pe António Vieira disse da superação da matéria). Acho que devia haver o sacramento da Confirmação todos os dias, e não ser limitado a ser uma segunda via do baptismo. Mas no princípio, para ele, está o episódio da Transfiguração, do Monte Tabor, que S. João, que lá estava, é o único dos quatro evangelistas que a ele não faz referência. Homem de teatro, mas que entrou pela porta do cinema (teve João Bénard da Costa como professor, sublinhou), ele transfigura-se em todos os palcos, a partir das 21h,  assistindo ao nascimento de novas criaturas, os actores que "dirige". Teatro e catolicismo nunca se deram muito bem, reconhece. Mas olhe, Jorge  (e agora é a minha fala), olhe que não: uma alegria estampada nos olhos, na face, uma honestidade intelectual invulgar e contangiante, um homem que dá gosto.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

03.09.15

Sou nudista não praticante


Fátima Pinheiro

 Henri Cartier Bresson / imagem tirada da net

 

Já viu um nudista não praticante? Eu não. Até agora só vi nudistas. E não sou praticante. Não sou nudista, quero eu dizer. Até posso vir a ser. Se tiver razões para isso. Vem isto a propósito da expressão "católico não praticante", que muitos utilizam ao posicionaram-se no quadro das religiões. Dizem-me isto quando eu digo que sou católica, que vou à missa e o resto. Podem dizer. Como eu também o posso. Cada um é o que escolhe. Mas não faz pleno sentido dizer "católico não praticante". Usa-se o adjetivo para dar mais força a essa auto-declaração? Porque sempre são 3.000 anos "às costas"! E com cremação ou sem ela, quando um dos nossos morre, lá se chama o padre, não é?

Eu percebo o sentido que se quer dar: alguém, batizado ou não, quer dizer com essa expressão que tem determinado apreço por certos valores "católicos", mas que não aceita tudo o que o Vaticano diz. Mas para apreciar e seguir esses valores não é preciso ser católico. Qualquer moral os apregoa: amor, justiça, paz, e os outros todos.

O que oiço mais de quem assim se designa é: a Igreja está cheia de contradições; o fausto, pompa e circunstância; as riquezas em geral; a pedofilia; os padres que têm amantes; a inquisição; e mais, muito mais. Mesmo assim não tem sentido. É como se alguém dissesse: eu sou nudista, mas não sou praticante. Mas não é bom. É bom ser-se plenamente uma coisa. Ser benfiquista assim-assim, por exemplo, não tem graça nenhuma. Quando ele perde, na minha casa cai o Carmo e a Trindade. Mas ninguém é obrigado a ser isto ou aquilo. E como pessoas valemos todos o mesmo. Qual o mal em ser católico, ou não o ser? Onde está a liberdade religiosa? E não me venham com os fantasmas do passado. Neste ponto todos temos culpas no cartório.

É costume dizer-se que para uma boa diplomacia há dois assuntos que devem ser evitados: religião e política. Vou a muito sítio e confirma. Fala-se de tudo, menos disso. Há que ser politicamente correto. Como se fosse possível viver tirando a pele: a da política e a da religião. Eu percebo que se possa viver sem querer tomar posição; o que redunda numa posição também. Mas como optei por refletir estas coisas, sou politicamente incorreta. Se vem a propósito, abordo tudo. Às vezes também o faço quando parece não vir a propósito, como hoje, se calhar, agora aqui.. Ou seja, não faço questão de começar a atirar para matar, mas considero mais humano não fazer tabu de certos temas. Uso a "razão". Nasci com ela. E aplico-me à argumentação. Na praia onde descansamos, ainda sabe melhor. E vai mais um mergulho.

É bom ser-se plenamente de uma coisa, dizia eu. Pois é, a minha família (a começar por mim) está cheia de contradições. Mas eu não a trocava por nada. Tenho orgulho nela. Por ser a minha. E não me calo. O segredo e a intimidade é outra coisa. E esta última é do que mais humano há. Aí o silêncio é natural. Como a respiração. Aliás, sem isso não há "família" que resista.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

12.07.15

A Apologia de Laura


Fátima Pinheiro

 imagem tirada da net

 

A melhor apologia de alguém é a sua própria vida. E não há careca que não venha a ser descoberta. Não tenho que fazer um desenho, pois não? As verdades, como o azeite na água, vão vindo ao de cima. Há coisas que preferiria calar. Mas vivemos, também, numa praça pública. Tem que ser. Porque sou alérgica à injustiça e à ignorância. E prefiro ter as mãos sujas, meter as mãos na massa, do que guardá-las para depois, vegetando numa indiferença mortal. Triste ter que falar de certos casos, mas é o que há. Eu cá abraço tudo, mas só me cala a boca um beijo bom, grande, do tamanho da minha "insignificância" maravilhosa de nada ter feito para "ser". Vem esta conversa porque ontem li um artigo duma jornalista que, a partir de agora, vou passa a ler: Inês Teotónio Pereira . O artigo tem o título: "E se Laura Ferreira fosse de esquerda?

 

Conta Inês que houve quem tivesse posto a hipótese de o facto de ela ter aparecido em público ao lado do marido, o primeiro-ministro, sem esconder a doença contra a qual luta, poderia ser instrumentalização.Olhei a fotografia, e lembrei-me de outras fotografias dela, em outros eventos, ao lado do marido. Com a mesma pose, com o seu ar de mulher a quem não lhe interessa ficar bem na foto, mas sim outras coisas. Só que nessas fotografias, ela tinha cabelo.

 

Apenas umas perguntas:queriam que ela aparecesse em privado com o marido? A sua vida não mostrou já de que género de mulher estamos a falar? Não se pavoneia por aí, e tem a vida rica de gestos com pinta. Porque não se escreve sobre esses? Não "interessa", pois é! Quem é que já lutou contra um cancro? Eu ainda não,mas conheço de perto alguns "casos". Há quem"desista"!

 

Para mim é, por agora, conversa acabada. Teria muito a dizer. Mas chega. A não ser que razões ponderosas me façam falar. Parar é morrer. Triste isto. Agora, católica por adesão a um "natural" e extraordinário desafio que um dia Alguém me fez,  sou esquerda, direita e o que houver. "Universal", é isso que quer dizer a palavra "católico". Considero a política a atividade mais nobre (Aristóteles, entre outros, explica isto muito bem). Não brinco às hipóteses nem tenho a chave das intenções.Nem nada defendo. A vida, sim -  Laura também - vem com cartão de visita. Só não vê quem não quer. Não é que andemos por aqui, a jogar às escondidas! É que sem liberdade não seríamos pessoas; viveríamos tudo em segunda mão. Mesmo de cabeleira farta, sem liberdade tudo de pouco vale. 

 

Com tanta riqueza, há ainda quem discuta a falta de lenço na cabeça de uma Senhora e se ponha a conjecturar! Dêem-lhe mas é uma festa na cabeça, um abraço, ou um beijo! Comentemos outras coisas. Poderíamos falar de política.

 

A continuar narrativas destas, vamos onde? É o que acontece a quem não tem argumentos e uma cabeça, essa sim,  oca. Caso para perguntar: afinal quem está a instrumentalizar quem ? e o quê? As aparências só iludem a quem o quer.

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

23.12.14

Maçonaria: um estábulo tramado.


Fátima Pinheiro

Jesus Cristo/imagem da Net

 

Muito simples a resposta à pergunta: catolicismo e maçonaria são compatíveis? A resposta está no meu novo livro, o Rasante (Chiado editora, 2014), lançado há umas semanas por uma pessoa de quem gosto muito e que pertence à Maçonaria – já o disse ele em público várias vezes; não revelo segredos. Segredo é segredo. O meu livro nada faz ou diz de especial. Diz o que já foi dito e redito. O tema veio-me há dois dias à cabeça. Assim escrevo as minhas crónicas: escrevo sobre o que me acontece. Estamos no Natal e talvez tenha sido por isso que me veio à memória. E talvez também porque há muita confusão, ou pouco rigor, ao falar de Natal e de Maçonaria. Uma coisa é certa: isto não é um j’accuse ou um je sais, je sais, je sais. Nem falo de pessoas, apenas de filosofia.

Maçonaria? Sei pouco do assunto mas interesso-me e sei q.b. E sei o que as pessoas de conhecimento médio sabem: que é bom pertencer à Maçonaria porque se arranjam muitos contactos que facilitam a vida, o arranjar trabalho e coisas do género. E sei também que as bases filosóficas da Maçonaria não suscitam o interesse que mereceriam. Há uns tempos li um livro – que esgotou num ápice – intitulado A Trama Maçónica, de Manuel Guerra. Fiquei esclarecida, mas não é deste livro que falo hoje.

É costume comparar-se o pertencer à Maçonaria como pertencer à Opus Dei, sem saber sequer o que é uma Prelatura Pessoal. Mal comparado, as pessoas (categoria em que me encontro, a de ser pessoa) pensam que é assim uma coisa de Rotários. As pessoas gostam de amigos, de estar protegidas, tecerem relações que as ajudam nas suas vidas. As pessoas têm pouco tempo para estudar.

Hoje falo sim do que já sabia de básico e é nesse ponto que fico: para a Maçonaria – e há várias, eu sei – Cristo não é verdadeiro Deus, mas sim verdadeiramente homem. Para o Catolicismo Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiramente homem. Para a Maçonaria Deus é um Arquitecto, que a razão humana entende, no juntar dos traços do mesmo esquadro. Para o Catolicismo Deus é a verificação da hipótese que Platão põe no Fédon.

Como não sei dizer melhor e tenho que fazer as rabanadas, transcrevo o que um dia escrevi no jornal Público “A hipótese de Platão verificou-se em Nazaré?”

« 'Natal é quando um homem quiser', é frase repetida todo o ano. Até é verdadeira, mas num sentido muito singular. Isto é, nem sempre assim é. Se dissermos antes: 'Natal foi quando uma mulher quis', já a história é outra. Platão intuiu o que aqui é implicado, mas não com todos os contornos. Foi preciso, uns séculos mais tarde, uma virgem de 15 anos (números redondos) para que a passagem do Fédon ganhasse sentido, e para que hoje o que se vive em torno do Natal se possa animar de uma esperança que torne "carne" os mais profundos desejos, pedidos, evidências e exigências do coração de cada pessoa.

Pode dizer-se que um triângulo equilátero é uma figura geométrica de 30 lados desiguais. Mas não do ponto de vista da ciência que o estuda enquanto tal. Neste caso é uma afirmação falsa. Já no que diz respeito ao sentido último da existência - se Deus existe, e se sim "quantos" são, e qual a natureza, ou, o que dá no mesmo, "quem sou, de onde venho e para onde vou?" -, celebra-se na filosofia contemporânea um relativismo, outrora visto como impotência da razão. Daí que as palavras de Platão acertem em cheio: nestas questões "últimas" - parafraseio o diálogo há pouco referido -, o homem vive como que num oceano de vagas difíceis, tempestuoso, a naufragar na ausência de resposta cabal. A não ser que o próprio Deus venha "cá" esclarecer-nos.

A posição dos sofistas - que Platão critica de forma rigorosa em terreno filosófico com a sua Teoria das Ideias, que são mais reais do que a aparente realidade que se pensa que nos sustenta - é, embora noutras modalidades, defendida hoje: a dificuldade das questões e a brevidade da vida humana alegadamente justificam que cada um seja a medida do real.

O sentido religioso, isto é, aquilo que no homem o impele a uma religação com o elo perdido, é construído por cada um, com as forças de cada um. Por um lado, uma solidão dolorosa, ou cruz sem ressurreição. Por outro, pode defender-se, como fez o então Presidente Clinton, "a América é o país mais religioso do mundo" porque nele há mais religiões.

A hipótese que Platão pôs verificou-se em Nazaré? That"s the Question. Todas as religiões são um esforço mais ou menos individual, mais ou menos estruturado ou ritualizado, para "sim-tonizar" o homem com o Infinito. Apenas uma delas - o que levou Julien Ries a afirmar então que, em sentido estrito, o Cristianismo se trata da única religião que não é religião - escandalosamente, para muitos, se apresenta ao mundo com a pretensão de que "contém" e "fornece" o Infinito.

Num momento do tempo - como bem notou T. S. Elliot - no que acontece no diálogo de todos conhecido, entre o anjo Gabriel e a rapariga escolhida por Deus, "marca-se" o tempo. E aqui lembro Paolo Pasolini, no filme Evangelho segundo Mateus (1964), na cara que mostra Maria serena mas preocupada com José, que só mais tarde vem a perceber. Quando isso acontece, ela espera por ele, já com as mãos na barriga, e o seu sorriso só se abre ao abrir do sorriso do noivo.

O que tem ela no seu seio? O Infinito? Esta é a pretensão que faz da Igreja o que Ela é. É a pergunta à qual cada um terá que responder, ou simplesmente ignorar, ou tornear, por dificuldade ou por "não ter tempo". Seja como for, e olhando o Natal como se apresenta vivido hoje, ele é o que um homem "quer". O Natal "é" anjos, ovelhinhas, estrelas e bolas coloridas, da almofada ao postal? O Natal é a festa das famílias? O Natal é o Verbo que se fez carne naquele seio? É tudo isto?

O que nos enche mais a razão, isto é, os nossos mais profundos desejos, pedidos, evidências e exigências? Quero religar-me a esse "X" que, por ser do "tamanho" que é - Infinito e bebé "em palhinhas estendido" -, é capaz de encher o vazio que só cínica e hipocritamente - isto é, de forma irrazoável - posso dizer que ignoro? Ou fico-me sustentado pelas luzes? Lindas, sem dúvida, e a fazer parte, com o bacalhau e os sonhos. Mas sombras de sombras da Luz que Platão sabia e 'conheceu' .»

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

24.11.14

José: não sei perdoar


Fátima Pinheiro

 

 imagem e semelhança/ da net

 

 

Não te dou como culpado, presumo a tua inocência. Nem estou aqui para te defender. Mas se és culpado, devo dizer que não sei perdoar, como não sei perdoar ninguém, Graças a Deus. Deves estar a sofrer. E muito mais ainda se estás inocente. E seja como for, acho criminoso o que estou a ver a correr nas malhas sociais. Tu com a Judite de Sousa naquela “célebre” e montada entrevista romàntica; tu numa fotografia com Soares, em que ele diz “eu não te disse que era melhor teres criado uma Fundação”, etc. Escrevo-te porque não se fala de outra coisa, e eu sou uma pessoa normal. E tenho pensado que se tudo isso de que te acusam é verdade, é grave. Não é trivial. Então?

Não me parece correcto, nem para mim nem para ti, especular. Resolvi então parar aqui. Apenas tenho pensado, e pensarei, muito. E penso no cenário de ser verdade tudo aquilo de que te acusam. E devo dizer que até penso que é verdade; mas como sou limitada, isso não me escandaliza; seria uma vez mais erro meu. E a ser verdade é mau. Em primeiro lugar para ti. É mau para a Política, para o Bem Comum. É mau para quem tem vivido estes últimos tempos de aperta o cinto de forma excepcional. Mas páro. Já chega. Não sei perdoar ninguém. E sou católica, imagina!

O perdão está nas mãos de Deus. Como a minha vida, e tua, está nas mãos Dele. Só Ele tem esse poder. O perdão é uma “coisa” que nos acontece, se nos deixamos ser perdoados. Isto parece um ajuste de contas, quer dizer, da forma que falo parece que estou para aqui a encolher a vida. Como tudo afinal se tratasse de uma contabilidade. Mas a verdade é que muitas vezes reduzimos a beleza de viver a isso mesmo, a uma burricada de cá se fazem, cá se pagam, duelos inúteis (por isso é que entendo muito bem Saramago). Temos uma tendência a ignorar ou esquecer a grandeza que nos “define” e nos é oferecida em cada circunstância. A minha Religião chama-lhe “pecado original”. E nisto, também, é realista. Como dizem os antigos, e S. Paulo repete-o, "Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero." Não me venham com coisas new age, género: supera-te, vive acima dessa, bora viver sem dor, etc. Não há aqui epidurais. Ou não terei eu “coração”?

A vida é sim uma festa. Espero que sejas inocente, e que se parem as brincadeiras. Eu? Não sei perdoar. E não me escandalizo. Deus me perdoe e ensine a destravar os meus ódios. O que me vale e me enche de alegria é saber que entre a “imagem” e a “semelhança” que sou,  há um caminho que me é dado. O tempo não é uma ilusão. O tempo é para a liberdade. O tempo é para sorrir porque a Vida, em nós, vence sempre.

Quem escreveu o que acabei de dizer, diz também: “A fidelidade (...) é a mais integral de todas as virtudes humanas. O homem participa numa batalha e, sem a fidelidade, não conhece a sua luta; apenas usa da violência, interpreta uma vontade, é instrumento de uma opinião. A fidelidade move-o desde a sua origem, é a primeira condição da consciência. Não se efectuam coisas novas sem fidelidade. Não se engrandece a piedade ou se priva com o mais simples sentimento, sem a fidelidade. Uma acção progressiva tem que ter raízes tumulares, raízes naquilo que encerrámos definitivamente - uma era, um conhecimento, uma arte, uma maneira de viver. A fidelidade, disse eu, assegura-nos o tempo de criar e o tempo de destruir o que se tornou inconforme à imagem do homem. Nada é digno de valor, sem fidelidade.”  (Agustina Bessa-Luís)

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

25.09.14

Fernando Santos e Passos Coelho: "coaches" de uma cara só?


Fátima Pinheiro

Temos amigos comuns. Já estive com ambos em ocasiões diversas. Se estou agora a misturar futebol e política? Estou. Misturo mas distingo. E não dou para a caixa da confusão. Mas na vida é tudo assim. Tudo acaba - ou começa - por estar conectado de alguma forma. Uma coisa que gosto neles (e já agora, em mim): não andam aqui para mariquices. E não metem dinheiro ao bolso. Um substituiu ontem Paulo Bento para entrar em campo, neste caso para ser o "coache" da seleção nacional; do outro se diz agora que haverá razões para que saia de jogo porque cometeu uma falta. Pois hoje, sem mariquices nem a meter dinheiro ao bolso, aqui vão umas impressões digitais para uma conclusão pessoal. Muito pessoal, mesmo.Talvez por isso seja melhor não lerem. E eu que não sei por aquela bolinha vermelha a prevenir. A não ser que ponha uma do Benfica. Não seria fora de jogo...

Nem tudo o que é privado deve ser calado em público. Muitas vezes é mesmo mais razoável dizer publicamente um certo número de coisas. Não por se estar a "fazer peito" voluntarista, mas por ser sinal de maturidade, de quem não confunde. Dou um exemplo. Uma vez fui a um lançamento de um livro sobre o Papa, escrito por pessoa de sólida convição católica. Foi Fernando Santos que o apresentou. E fê-lo de tal maneira, que me surpreendeu. Não estou habituada a coisas destas, porque não é "normal" um treinador conhecido e com a sua qualidade, dizer assim que é católico. Passou-se isto, ainda para mais, no Museu do Fado. Não só leu o livro - o que nem sempre acontece a quem apresenta livros -, como até nem estava numa fase aurea do seu percurso profissional.

E fê-lo como se estivesse - e como esteve ontem - na sede da seleção nacional, ali ao Rato (mesmo ao pé da Empordef, onde trabalhei uns tempinhos, e portanto é um lugar que me é muito familiar - às vezes os jornalistas e os polícias entupiram-me a passagem). Mas voltando ao homem que ontem foi notícia: Fernando Santos apresentou o livro na primeira pessoa, sem altos e baixos de voz, com naturalidade, e feliz por ser quem é. Como nada vida, para quem pensa que ela é também um jogo onde cada lance é decisivo , por isso, só pode empenhar a pessoa "toda". Faz-se uma coisa de cada vez, mas cada uma é para ser feita com todos os argumentos. Se há razões adequadas para, por exemplo, substituir um jogador, então que se substitua. A arte de dirigir é singular, e é isso que distingue quem sabe andar e fazer andar os outros.

O "coaching" não pode prescindir dos talentos da cada um - a começar pelos do próprio "coache" - sob pena de assentar no vazio e de nos serem oferecidos "coachees" robots ou marionetas. Os resultados dizem tudo. Numa palavra, o homem que nos vai levar a França 2016 - o Euro começa a 10 de Junho, dia de Portugal; espero que acabe também num dia de Portugal.... - é homem de uma cara só. Dá a cara. E assim ainda sobe mais enquanto treinador. O esconder, a cobardia, o medo, a mentira, são obstáculos que têm sentido se forem ultrapassados num golo de todo o tamanho. Como ele disse ontem, pragmático, "no futebol o mais importante é ganhar." É como na vida. Ganhá-la!

E Passos? É para sair de jogo com esta Tecnoforma? Em Maio a coisa abanou, ontem amainou. Não sei o que realmente aconteceu.Se foi uma falha, será ela razão para subsituir um jogador? Pois não sei. Só o treinador é que pode arriscar (quem é neste caso o selecionador?). É como na vida: sem dó nem piedade, arriscamos, queiramos ou não, em cada Passo; disso ninguém escapa, como ninguém escapa do apito final. Mas nem sempre se vive com a consciência das razões adequadas, isto é, "é-se" vivido, fora de jogo.


PS: AS BELAS CAPAS DOS JORNAIS DE HOJE

Lá fiz o meu exercício de comparar as capas dos jornais de hoje. Cinismo e hipocrisia são coisas feias. Só em relação aos treinadores de futebol é que compreendemos e perdoamos os erros do passado? Atiram-lhe a primeira pedra, se for caso disso? Sim refiro-me ao PM. Ainda é com politiquices que os jornais lutam por audiências. Ou com textos literários em que a sobranceria e o cassandrismo cantam vitórias. Vão assim, vão. E eu digo sempre: felizmente. Porque mesmo as coisas más fazem sentido. Querem uma boa capa e não há tempo? Ponham uma capa a branco. Assim como na angústia da página em branco, que não é assim tão branca como a querem pintar.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).