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Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo (Ef 4, 23-24).

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

23
Jul17

Gozar o domingo


Fátima Pinheiro

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Comentando opiniões sobre a fé em Deus, um professor meu dizia: todos ficam excitados com a frase de Kierkegaard "a fé é um salto no irracional"; calam-se, e o assunto "relações fé e razão", está arrumado; só que se esquecem de perguntar quem é que dá o salto. A Ressureição ninguém a viu. Por isso a Ciência, a dama da demonstração, não é para aqui chamada. Mas a maior parte das vezes, é em seu nome que se nega a veracidade do tal acontecimento. É uma espécie de anacronismo metodológico. Este assunto pode ser posto numa pergunta que me é dirigida por quem diz que o túmulo de Jesus está vazio: foi assalto? Ou: quem dizes tu que é Jesus de Nazaré? É Deus? Ou não? O mesmo filósofo reconhece que esta é "a" pergunta . É que se Ele é Deus, se ressuscitou, tudo muda de figura. Mas como posso eu saber? Ou: quem salta, onde, para onde, como, e porquê?

Se a vida apenas se dirige para a morte, nada na vida faz sentido completo e bem fizeram muitos, como o meu vizinho, que acabou com a brincadeira há dias. Qual é o gozo de gozar se tudo é vão? Mas também fazem bem os que decidem ficar. Agora, se é para ressuscitar, e se eu não vi, então vou perguntar a quem diz que acredita. Vou chamar-lhe Pedro. Não lhe pergunto por ser bonzinho, mas por ser um homem onde brilha uma "coisa maior" que ele, e isso atrai-me. Mas para me dar argumentos; não me contento com fezadas, quero saber porquê. Que razões me dás da tua fé, Pedro?

Não vi. Procurei. E onde vi uma humanidade maior, uma alegria estampada no rosto, parei e disse: eu quero isto para mim. No túmulo vazio vi umas mulheres que diziam: Ele não está aqui, ressuscitou, porque o tinham ouvido de um anjo. A Maria Madalena, que não O conheceu logo (pensou que era o jardineiro), Ele pediu para dar a notícia. Era um homem diferente dos outros, diante do qual o meu coração palpitava mesmo. Um homem que correspondia ao meu desejo de humanidade.

E passou de boca em boca. De carne em carne, de curiosidade em curiosidade. Uma vida que tem milhares de anos, e que chega até mim numa cara que me atrai, toca, e põe em carne viva as minhas inquietações. Como aquelas mulheres, eu quero e hoje: verdade, beleza, justiça, bem, amor. À volta tudo grita ou conspira o contrário, mas aquele homem era, em pessoa, tudo aquilo. E seguiram-No.

Seguir é simples como beber um copo de água. Um salto. Igual a muitos saltos que dou ao acreditar, por exemplo, pelo que sei e vejo, que o meu filho, desta vez, não me está a mentir. Não o posso demonstrar, isto é, dizer todos os passos que me levam a julgar como verdade que assim é. Mais simples: não é por razões científicas que sei que o meu filho me está a falar verdade. É por outro método, ao qual os filósofos chamam de certeza moral: confiar num outro que me dá razões para tal. Para não ir mais longe, foi John Henry Newman em "The Grammar of assent" que explicou isto melhor que ninguém. Demonstra que tratando-se do sobrenatural, a razão não faz nada que não costume já fazer em assuntos naturais, como o do meu filho. Salta. Só que para lá do natural.

Quem salta é então a razão. Porque encontra "alguém" da sua família: razões. Também posso saltar por fezada. Mas é desumano ir atrás porque "sim". Pedro não. Eu também não. Só descanso, ao saltar no desconhecido que me conhece como ninguém. Por isso é razoável reconhecer que Ele ressuscitou: senão eu não seria o que sou, nem quem sou. Sei-o porque me experimento. E está na cara. E se um dia me aparecer um outro Pedro maior, vou segui-lo. A coerência não é por si, um valor. Nestas coisas o valor está em termo-nos em conta. Mas o que eu vi no Pedro é de tal ordem que duvido que mude. Não que seja eu a medi-lo. É ele que me mede a mim. Como disse a Zaqueu, o tipo que cobrava impostos e que, por ser baixinho, teve que subir a uma árvore para O ver passar: desce daí que Eu vou a tua casa agora. Procurou, encontrou. Saltou cheio de razões, mesmo não abarcando tudo. Bom sinal: se eu tudo abarcasse estaria apenas diante de um mim e não de uma coisa maior. O cristianismo é superior à razão, mas em nada lhe é contrário. E é a razão que reconhece que há algo maior que ela. A fé é "Um raio de luz na escuridão", diz sempre o Papa Francisco.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
24
Mai17

O pior é o resto!!!


Fátima Pinheiro

Umas boas partilhas do Expresso que levo para férias. Reaprender a ouvir. A viver. Para ser feliz. Não deixa de ser mais outro dia. Temos agenda. Um plano minimo ou máximo, seja ou não feito por mim, pelo menos aceito as regras do jogo e faço por jogar. Umas vezes melhor, outras não. O dinheiro conta, e o mood varia consoante as quantidades e necessidades. Quem tem quer mais. Quem tem pouco também. Há quem viva noutra lógica e viva para um dia se rebentar em Manchester. Ou passar o tempo deixando que ele se passe sem passar, no Tibete, ou no Carmelo. Ou em lugares mais comuns. Diz-se que tudo é relativo, e que o que interessa é a saúde. E quando se morre, os que ficam dizem coisas muito diferentes em relação ao tema. E neste ponto, é também "cada cabeça sua sentença". O pior é o resto.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
03
Set14

Encontrei a «Casa Batalha» e a Shakira na Praia: uma parceria?


Fátima Pinheiro

Carolina "Batalha"
Fotografia - Joana Guedes Oliveira

Na Praia tudo pode acontecer, como conhecer a Casa Batalha. Já a conhecia, claro! E foi bom reler há dias a história da Casa de comércio mais antiga do País, sempre no mesmo ramo e na mesma família (http://150anos.dn.pt/2014/08/26/casa-batalha-batalha-de-400-anos-pela-sobrevivencia-e-o-sucesso/). Não é disso que falo. Mas de um encontro. Inesperado. Há duas semanas quando pus o pé na areia dei de caras com uma "loja" diferente. Chamou-me a atenção a arte que estava exposta. Colares e pulseiras, missangas, pedras, trabalhadas de forma diferente do que costumo ver. Era o sangue Batalha, neste caso de uma Batalhadora de nome Carolina, que passei a conhecer. Está-lhe no sangue. Depois de me falar das peças, fomos para a sombra de um toldo e eu registei no meu bloco de notas improvisado, sobre o duro da capa do livro verde que tenho nas mãos, "O homem que sabia demais". Ela também. E será que traz à família uma parceria nas mãos?

Rodeadas de coisas lindas. Mulheres! Olhem os dois anéis que ela tem nos dedos, na fotografia acima. Ela? Disse sobre a sua arte "coisas" que servem para se viver de forma mais humana. Faz a partir do que tem à mão, faz o que gosta, pensa em vender mas pensa no que os outros gostam. Tem a sua cor preferida e um segredo para sermos felizes.

A Carolina é bisneta de um dos nove irmãos Batalha. Maria da Paz Batalha Manzoni de Sequeira, tendo vivido desde sempre rodeada de missangas, pedras e contas, o que pode explicar o seu interesse e gosto pela bijuteria. Desde muito cedo que ela, a sua irmã Sofia e já mesmo o irmão Afonso fazem colares e pulseiras para oferecer como prendas ou fazer vendas à família. Este ano, tal qual como no ano passado em Moledo, juntou-se com a irmã Sofia e com o primo António Maria para venderem na praia e foram fazendo as pulseiras durante as férias. O Afonso ajudava a chamar as pessoas para virem ver.

Inundada de cores, formas e vidas, começou por volta dos 4 anos a fazer pequenas "batalhas". Fazia para dar, e agora também para vender. Pensa no destinatário, mas só faz o que gosta. A cor preferida? Vai gostando de todas. A felicidade está em ajudar quem não consegue ter esperança, dizendo que vale sempre a pena.

"Então e a quem sofre, muito, o que dirias?", insisto. Sempre com aquele sorriso discreto mas vincado, pensa e diz no mesmo tom: "não se pode desistir...". Por muito que alguém sofra - e aqui referiu as crianças abandonadas - não se pode desistir. Falou-me da fotografia de uma menina com o olhar vazio. Mas nada de lamechices. Antes pelo contrário. E deu-me o exemplo da cantora Shakira, que ajuda as crianças da América Latina (fui à Net: Shakira criou a ALAS que, em espanhol, significa asas; García Márquez participou na campanha que luta contra as condições que matam 350 mil crianças por ano na região; Miguel Bose, Ruben Blades, Juanes, Ricky Martin, o grupo de rock Mana, Aleks Syntek, David Bisbal e Alejandro Sanz ajudaram - não sei se ainda ajudam; e que não foi a primeira vez que Shakira deu o que tem e partilha o que recebe; logo após o seu primeiro disco de sucessos a cantora criou uma outra fundação não lucrativa, Pies Descalzos, que ajuda crianças vítimas de violência).

Volto ao toldo. À Carolina. Cara alegre, de luta, de quem não cruza os braços. Firme, sólida, bela, discreta. Como o que sai das suas mãos. O talento revela-se no fazer e no partilhar. Por isso tenho saudades boas. Da praia e dela. Volto se Deus quiser.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
26
Ago14

Pablo d'Ors: identifica "o único mito que ainda resta no Ocidente"


Fátima Pinheiro


"A Biografia do Silêncio", de Pablo d' Ors, é um livro que faz paz parte de uma colecção coordenada pelo Pe José Tolentino Mendonça, intitulada "Poéticas do viver crente", da editora Paulinas. Veio comigo para as férias (o livro...). Que seria bom para mim, que sou invasiva, não deixo os outros falarem, sou intolerante, não paro, confundo vida com vivacidade, faço muito barulho, etc. Depois de ler devo dizer que é mesmo verdade (eu já "suspeitava"...) isso que dizem. E apesar deste livro - agora de cabeceira - me ter vindo a mudar, continuo a ser tudo aquilo que era. Só que agora sei, quer dizer experimento que é assim. Faz toda a diferença.

Chama-se a isto "consciência" que, ao contrário do que por aí dizem as filosofias, é o que de mais concreto há: observação, colagem à realidade. E vejo que é muito bom. Nas suas breves 150 páginas, o livro é tão rico que trata de tudo. E de nada, diria o autor. Conta-nos de nós, de mim, e curiosamente do Ocidente, onde habita ainda um poderoso e fecundo mito. Que ricas férias! Afinal pensar é viver, tudo o mais é conversa e não serve para nada. Como dizia Simone Weil, lembra o espanhol, a atenção é a arma mais poderosa.

Então e o tal mito? Leiam as páginas 46 e 47. Eu tenho a segunda edição. de Fevereiro de 2014. Obrigada Margarida por me teres mostrado o livro. Vejo agora melhor, porque experimento o que percepciono, debaixo do meu nariz. Está tudo à mão. O tempo faz. E neste caso a sinalética diz "mexa".
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
22
Ago14

Gosto de observar as ressacas


Fátima Pinheiro

imagem tirada da net

"Tudo o que parece é." Ensinaram-me que era ao contrário: "nem tudo o que parece é." Na escola ensinaram-me uma "Alegoria da Caverna" que não tem nada a ver com o que Platão quis dizer. A herança cultural que me cabe, e que espreita em cada esquina das minhas "cenas" quotidianas, invade-me mais platónica que aristotélica. Na Universidade ensinaram-me que Santo Agostinho é platónico e que S.Tomás é aristotélico. Depois foi preciso von Balthazar ser citado para ouvir dizer que a verdade é sinfónica, quanto já se sabia. Um cristianismo dualista? Não há. Se há quem pense que sim, que o cristianismo é "esquartejante", ou não sabe o que é o cristianismo ou não sabe o que é o dualismo. Observar, observar e observar, é preciso. Ninguém é feliz de beber de um ideal. Feliz é aquele que "bebe" de pessoas. Se a água for podre melhor morrer de sede do que de uma ideia que, por definição, não "sabe" acontecer. Chama-se a isto "cair na real".

Mas como estas ideias falsas foram passando, e muitas delas por práticas e prédicas a condizer, o ditado tem vingado e vive-se em dualismos constantes. Dizem os místicos de todos quadrantes que é preciso deixar assentar o lodo para começar a ver. E que ver não é difícil, que o difícil é querer ver. Simone Weil bem frisou que a mãe das virtudes é a atenção; e que é esse desejar a luz que produz luz. Platão nunca disse que as sombras projectadas no fundo da caverna eram aparências. E que no "mundo lá fora" é que era. O que ele disse foi que as sombras tinham a realidade de serem aparências. Eram aliás tão reais que foram elas a suscitar o interesse de um dos escravos a querer ir mais longe. Tudo interligado, portanto.

Por tudo isto, do que gosto é de observar. Não que seja isto um estar de "fora". Antes pelo contrário, observar é beber. Mas há "beberes e beberes". A selectividade aprende-se no tipo de ressaca que se tem. Depois é escolher.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
21
Ago14

O «Glamour» da Praia Maria Luísa


Fátima Pinheiro

o "meu" Celestino num memorável 10 de Junho (fotografia da net)

Leio sempre revistas estrangeiras tipo "Vogue". Na praia adoro paginar pelo menos uma, para ver onde andam as modas, para ver os bonecos, para no friozinho do mar sentir as camisas de gola alta quentinhas que guardo para o Natal, e por todas as razões. Ontem escolhi uma de que gosto muito e que tinha um artigo cujo título era a minha cara: "15 coisas que uma mulher deve ter...". O autor era um homem giro, entre os 30 e os 54.... Cheio de estilo. O George Steiner ficou no saco o dia todo, com o Ramin Jahanbegloo. E os livros estragam-se na praia, coitadinhos.

O que é que eu devo ter? O que é que eu devo ter? Depoir de ler pensei que o jornalista era afinal fracote. E era uma magazine, estrangeira e tudo. Então? É que eu tenho afinal tudo o que ele diz. Não pode estar completo. Eu acho que preciso de ter mais qualquer coisita. Hoje - porque ontem já era tarde - vou ter com o Comendador Celestino, que cuida muito bem da praia, e vou perguntar-lhe pelas 15 coisas que devo ter. A ver se me safo melhor.

Então que 15 coisas são essas? Puxa, são 7h e 45. Tenho que ir, senão perco o bom da manhã. Logo, se não vier tarde do T Club deixo aqui as preciosas informações do Celestino e do francesinho, e depois durmo até querer. Agora até estou a parecer o Luís Filipe Menezes que no seu facebook se deu ao trabalho de nos contar os momentos das suas férias. A lembrar que o político é humano, diverte-se, enfim, que trabalho é trabalho, e que conhaque é conhaque.

O Steiner tem mesmo razão ao dizer que a nossa época é genial. Mas apenas num ponto. Não é difícil identicá-lo. Hoje, as 4 entrevistas que deu em Cambridge vão andar pela praia Maria Luísa. Se calhar deixo o Celestino descansado na azáfama que leva a sério e cheio de gosto. Observar como ele trabalha, a transbordar de «Glamour», é seguramente uma coisa que devo "ter". E livros estragados, já agora.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
20
Ago14

Esquece! Goza mas é!


Fátima Pinheiro

( Byung-Chu Han, fotografia da net)

O filósofo Byung-Chu Han reconhece o cansaço como a doença “sinal” do nosso tempo. De vez em quando vou ao “El País” e “inspiro-me”. Foi lá que conheci este jovem pensador da Coreia do Sul que dá muito que falar e pensar. "A sociedade do cansaço" e "A sociedade da transparência", contam-se entre os cerca de 16 livros que já escreveu.

O inimigo exterior do homem, diz, é a violência concorrencial individual, que leva à exaustão, à depressão e ao cancro. Ou seja, a corrida para ser o melhor, o mais competente, o mais eficiente, o mais valorizado. E já nem está mais presente a questão do trabalhador alienado de Marx. Segundo Han, isso não se aplica mais porque o homem moderno é o seu próprio explorador: "o sistema obriga todo indivíduo a actuar como se fosse um empresário, um competidor do outro, com quem tem apenas uma relação de concorrência”, diz.

Cada um de nós entende-se como um ser livre mas, na verdade, vive uma auto-exploração voluntária até à exaustão total. Não se trata de um novo vírus ou bactéria mas de um problema neuronal. Entre outros, o sistema neuro vegetativo “escangalhado”. Sim, aquele sistema simpático que não comandamos e que é responsável, como uma rede a cobrir-nos o corpo todo, pelo nosso funcionar vegetal. O quê?

Ó doutor explique-me lá isso do sistema neuro vegetativo, perguntei uma vez ao médico. Ele riu-se e disse: “Levante o braço.” Levantei. Depois disse para eu “pôr” o estômago a trabalhar mais devagar. Estúpida, olhei imediatamente para a minha barriga. Ele, riu ainda mais e eu fiquei a perceber para sempre o que era isso do neuro vegetativo.

Depressões, personalidades baralhadas, hiperatividades, fragmentações da unidade interna, incapacidades para integrar e refazer a experiência do vivido. Numa palavra: mudança de paradigma devida, em muito, ao excesso de emoções, de informação, de ofertas, de solicitações. Como eu dizia aqui ontem, a pessoa não pára, não escuta, não olha. Dizem-nos “esquece!”. “A vida são dois dias.” “Goza, mas é”.

Mas isso ainda agrava mais a doença e o mergulho no pantanal é quase irreversível. Escuso citar casos recentes, só para referir os públicos. O coreano suspeita que a situação não seja alavanca. Tudo indica que o indivíduo seja empurrado cada vez mais para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. A auto-estima idolatrada leva a uma prisão de onde não se sai, nem em precária. Será?

Eu tenho partilhado muitas vidas. Em casos semelhantes vi liberdades, alavancas, diferentes. Somos sim uma unidade psico-somática. Integramos espiritual, psíquico e matéria. E precisamos de ajuda e companhia, "limitadas" e de qualidade, para os saber jogar. Agora que tenho visto tanta concha à beira mar, percebo com mais clareza e frescura o que é estar fechado numa delas.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
19
Ago14

Shots socráticos na praia (2): não merecemos nada!


Fátima Pinheiro

Joaquim Baltasar, VERÃO - óleo s/tela 0.40x0.40m - 2012 — em Lisboa

Não merecemos mesmo nada. Pela simples razão de que nenhum de nós fez nada para ter "aparecido" na existência. Quer acreditemos que tenhamos surgido no enlaçe de uma cadeia de um determinismo cego, quer acreditemos que façamos parte de um determinismo inteligente. O mesmo se diga do dia em que desaparecermos. O mérito vem doutro sítio.

Em cada gesto meu, tenho em conta apenas o meu próprio interesse (leia-se "umbigo), ou tenho em conta tudo o que a minha vista alcança? Diante do mistério da vida não há muito que fazer. Antes pelo contrário está tudo por ser feito. É um paradoxo, e é nele, como dizia Chesterton, que a verdade se "esconde", ou nos espreita.

As férias servem também - como tudo nesta vida - para não prescindir de um tempo de "parar". Desde a antiguidade - todas - chama-se a isto "meditação". Sentar e deixar acontecer. Todos os grandes que marcam a humanidade, em tudo o que fazem estão investidos por este silêncio que lhes vem de um meditar constante. Cada gesto seu é animado da Presença que lhes acontece em cada respiro. São pessoas que respiram. Têm as costas direitas, estão no local e na hora certa. Não adiam. Cortam a direito. Fazem "agora". O quê?

A olhar o mar - que é, como o fogo, o que mais se aproxima do "todo" - cada um de nós tem uma alternativa: ou olha o mar mesmo, ou olha para os seus "umbigos". "Estar ali ou não" é, neste segundo polo da alternativa, o mesmo. O mérito destes olhares é tanto maior quanto maior for o que a curiosidade e desejo (que fez "parar") tiver em conta. Grande é então o mérito do olhar que nada exclui. Do gesto que alcança, assim, humanidade. Transforma sem pretensões. E o mundo pula e avança.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
11
Ago14

Podia ser Budista? Podia. Mas não era a mesma coisa


Fátima Pinheiro

fotografia de monges budistas, tirada da net

O Budismo faz sucesso. Na praia lê-se muito. E discute-se. E a razão é simples: ninguém gosta da dor e do sofrimento. E de uma forma ou de outra procura-se saber o porquê do mal.

Agora, não adianta defender que a solução é “negá-lo” por ascese. “Fazer peito”, como se diz. Porquê? Porque existe. E se existe, a solução mais razoável é a que não o ignora. Integra-o. É por isso mais humano procurá-la sem desistir. Não adiante ser como a raposa de “Nietszche” ao dizer das uvas maduras mas inalcançáveis : “são verdes, não prestam!”

Podia ser budista? Podia. Mas não era a mesma coisa. E não é por ser melhor ou pior pessoa, não é de moral que se trata. É porque seria menos humano. Isto em versão curta. Tem mais razões, mas fica para depois das férias.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
09
Ago14

A «silly season» tem desde ontem mais um tema


Fátima Pinheiro

(fotografia da net)

Nunca acreditei na história da Silly Season. Nunca as férias deixaram de fornecer assunto aos jornalistas. Assunto Bom e assunto Mau, como agora se diz – Nietzsche, com o seu “para além” de um e outro, tem tanto a dar. Que pena a Filosofia estar tão em baixo, a "perder pontos" para a ética e para questões de linguagem e de estados de alma. Não que estes não sejam muito importantes, mas há mais Filosofia do que aquela que encontro nas filosofias do cansaço, na astrologia, ou nas arrelias multiculturais; há mais do que nas gramáticas não transversais e nas antropologias que partem do ponto de vista que os animais têm de mim. Mais do que nas Ecologias “baratas”, ou nos “shots” filosóficos para todos os gostos. Filosofia & Company e em kits simpáticos: ela em dez minutos, ou no meu bolso, ou a ser bebida entre dois cafés, colorida e sem ser chata. Era não era? Mas há coisas que quando querem mudar o seu “core”, passam a ser outra coisa, e, neste caso de uma inutilidade que não pertence à “ociosiosidade” da Filosofia. Serve apenas para facturar à custa da ignorância alheia. É mau, muito mau.
A Filosofia não se vende, compra-se. Não é de graça, não. É cara, vem sem acessórios, a preto e branco, e quanto melhor mais consoladora. De resto não vale a pena. É areia para os olhos, ou caruma a engasgar piqueniques.
Mas vamos ao tema de hoje. E restrinjo-me só à secção de Política. Desde ontem que os nossos media têm mais uma «atracção». E se puxarem bem por ele – o que não é muito difícil, e nem sei se necessário – vão sair aí umas boas peças. Refiro-me ao regresso do deputado europeu Marinho Pinto, que surpreendeu nas últimas eleições com um resultado inesperado. Acaba de chegar e vai à corrida das legislativas 2015. Mas que grave! Se “quiserem” eu posso dar mais ideias. Por exemplo: quem é mais sexy, Drago ou Pinto? Dani vai sair do eixo do mal, ou do bem, e juntar-se ao bem bom de um novo pedaço de esquerda?
Em Bruxelas e Estrasburgo já não se fala de outra coisa. Como se pode viver sem Marinho Pinto? Até já se arranjou uma musiquinha: “How Am I Supposed To Live Without You? I could hardly believe it/When I heard the news today/I had to come and get it straight from you/They said you were leavin'/Someone's swept your heart away/From the look upon your face, I see it's true/So tell me all about it, tell me 'bout theplans you're makin'/Then tell me one thing more before I go/Tell me how am I suppose to live without you/Now that I've been lovin' you so long/How am I suppose to live without you/How am I suppose to carry on/When all that I've been livin' for is gone/I didn't come here for cryin'/Didn't come here to break down/It's just a dream of mine is coming to an end/And how can I blame you/When I build my world around/The hope that one day we'd be so much/more than friends/And I don't wanna know/the price I'm gonna pay for dream.”
Não resisti a transcrever o Bolton todo. Mas assim até dá para a banda sonora do filme de Luís Filipe Menezes no facebook, que trata da beleza e da sustentável alegria de umas férias de sonho.
O resto sabemos. Todos vão ouvir: o homem que era 15%, ONUS e Obamas de ar muito zangado, o Iraque, outra vez – tudo em registo de “bora lá ter a consciência tranquila”. E ainda mais ricos e pobrezinhos do Bês não Bês, de dinheiros em Sing a Pura, mosquitos e baratas bem boas que por lá se comem. E mais: vamos ver nos títulos os que não têm férias, os que nem as têm por não terem trabalho. Mais de Maddie e outros desaparecidos. Para acabar: redes em geral. Listas em geral: de livros, de rentrées ideais, "agora é que é...". Ou: "veja quem é seu amigo!". Ou "Será que o Alentejo já deu o que tinha a dar?". "Jesus necessário para a felicidade?" (mas esta é mais no Natal ou na Páscoa). "A auto-ajuda foi chão que deu uvas?" Etc.

Eu vou “to south”, acabo de uma vez com os jornais, e, como disse aqui ontem, não escrevo mais sobre Sócrates. Mas na maleta levo e trago mais surpresas, que espreitam. Não perco nenhuma. E começo a apurar pressentimento e gosto. É bom, muito bom. Apenas mais esta: os Antónios são bons, cuidado com eles. A importância de se chamar António, resumo assim.
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