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Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

09
Out17

Os que estão na mó de baixo...

Fátima Pinheiro

 

A Vida é injusta e muito difícil, dizias. Eu digo-te antes, a vida parece injusta, nós é que não entendemos tudo. Falámos nestes dias das nossas vidas. De política também, que faz parte da vida, é pública, e recentemente muito pública mesmo.  Mas em feliz hora,  o Prémio Nobel da Literatura foi este ano para Kazuo Ishiguro. Precisavamos de um filósofo de boas pretensões e não de um vaidoso qualquer. E que, mais uma vez mostrasse que a vida é literatura, no sentido que o dizer reflecte o que somos de uma forma criativa, inspiradora bela.  Bela, como a vida, que às vezes parece cruel e injusta. A palavra pode mudar,  independentemente da intenção do autor. As coisas mais belas, as mais importantes, não dependem de nós. E são elas que nos fazem correr. Isso sim, depende de nós.

E aqui para nós. Só está na mó de baixo quem quer. A vida é um moinho. Ponho aqui para mim e para ti. Não, não fico à beira do abismo. Ainda o Nobel e as razões da academia : a Academia informou em comunicado que Ishiguro recebeu o prêmio porque "nos seus romances, de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa sensação ilusória de conexão com o mundo".

Neste tempo de incerteza em  que vivemos, como refere o escritor no video que escolhi e postei em cima, importa lembrar que costumamos por uma pedra no passado, quer nas vidas pessoais, quer na História. Isso é desumano. Importa trazer tudo ao de cima, à flor da pele. Doa o que doer.

É esta a literatura que interessa. Dou parabéns à Academia. Não que eu ache que a literatura, para o ser, tenha que ter mensagem. A mensagem, a vida,  é que tem que ser literatura.  E música,  a mais metafísica de todas as artes. 

Tudo tem um propósito. O que anda agora mais nas vistas são as distintas agitações dentro dos partidos. Refiro-me a Portugal. Os que estão na mó de cima, os que passaram para a mó de baixo. É tempo sim de viver, com tudo no prato, e nada debaixo do tapete. A vida é breve e bela demais para jogos e joguinhos.  Chega de espelhos e leituras que não nos levam a nada. Tenho sim saudades do teu olhar, não me deixes ir embora!

Anthony Hopkins um mestre. E ainda Ishiguro, no livro em que usa o esquema fabuloso de uma escola que educa doadores de orgãos (sem que estes o saibam desde o nício), pergunta, pela boca de uma professora: será que temos alma ? 

 

 

 

 

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
02
Jun16

ANTÓNIO COSTA em TOP LESS

Fátima Pinheiro

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 imagem tirada da net

 

Como não sou ministro posso falar à vontade nas redes sociais (por acaso já fui ministra de estado por três vezes, sempre em mandatos de 9 meses que levei até ao fim, uma espécie de CRESAPS levadas a sério). E hoje faço como Edmund Husserl : ponho a pessoa em epígrafe "entre parentesis", o que não é possível fazer (mas também não há filósofos imaculados e o pai da fenomenologia - a minha "filosofia" de eleição - não foge à regra). É que têm acontecido muitas coisas que levo atravessadas. Um dia alguém disse que o país estava de tanga, não foi? Pois agora, digo eu, está em top less.

António Costa, Portugal agora é que era ou ira ser? Como sou uma mulher sem importância e tirei férias esta semana, deixo aqui umas linhas, são um feliz zero à esquerda neste universo onde há mais vida do que nos blocos, sejam eles de direita , de esquerda, mais os outros. Na segunda feira telefonei-lhe, mas o senhor PM estava numa reunião. Há coisas que só se dizem em privado, não podem ser escarrapachadas nas redes sociais.  Isto nunca se sabe. Mas fui muito bem educada pelos meus pais, e sem bofetadas, note-se. Na escola uma reguadazinha, mas coisa que passou: mordi uma colega porque ela fez umas coisas feias. Até hoje não mordi mais ninguém, só na brincadeira. Mas vimos, ouvimos, não podemos calar, não é? O futuro a Deus pertence.

Ia-me esquecendo do post. Os numeros da OCDE , os de ontem e os de hoje, muito, muito abaixo do optimismo vigente. Top? Less. O ensino público, por lei,  obrigatório para todos,  revela-se um monopólio do ensino, esquecendo a vitalidade de uma polis que takes a village e respeita as diferenças, de todo o tipo. A cultura finalmente no topo? Pois não. Começou à bofetada, obrigou o PM a educar os ministros; estranho ter que vir a público dizer aos ministros para se portarem bem nas redes sociais...então não é suposto serem já crescidinhos? Pois outra vez top less.

Não me alongo (vou arrancar um dente), e já que Carlos Moura de Carvalho é o homem com quem a minha querida irmã casou, e levou um ponta pé no traseiro ao ser demitido sem mais nem porquê, só queria dizer que é uma falta de educação não ter recebido uma palavra sequer , da parte do Governo que serviu com com dignidade enquanto esteve a cumprir as suas funções como Diretor Geral das Artes. Estiveram todos na semana passada na bienal de Veneza, e nem uma palavrinha!  Também não se faz. Abaixo de cão? Less, muito less. E sempre me disseram, e eu não podia estar estar mais de acordo, "uma carta tem sempre resposta".

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
13
Nov15

Portugal, precisa-se!

Fátima Pinheiro

 

 Sátántangó , Béla Tarr, imagem tiradad da net

 

 

José Ribeiro e Castro,Raquel Abecasis e Pedro Quintela numa conversa inacabada no Conhaque-Philo, sobre a Europa. Decorreu ao mesmo tempo em que Maria de Belém confessava a Maria João Avillez, na Capela do Rato, que gostava do Pai-Nosso e que o Povo é quem mais ordena. Com efeito, na 4ªa feira a Casa Museu Medeiros e Almeida foi lugar de mais uma tertúlia do  Ciclo "A Europa Somos nós". O meu gravador não registou tudo, deixo simplesmente o mote de Ribeiro e Castro (na minha amadora gravação). Digo apenas que me esclareceu este "juntar"  de pessoas tão diderentes e tão iguais, de obra feita e a fazer. Foi uma espécie de "personstorming".

Uma jornalista que é mesmo jornalista, sem esquemas ou  poses mediáticas, com olhos de perguntar, a querer abarcar todos os factores e não o polticamente correto, e que na vida e no trabalho é a mesma pessoa; um padre, mistura de S.Francisco e S. António, a quem a vocação foi a de seguir, não a Academia, onde seria uma estrela, mas a fundação e direção de uma Associação,o Vale dÁcor, que acolhe e cuida de pessoas com toxicodependência; um europeista convicto, de perfil mais conhecido que os outros, e que aportou ao debate a porta que o vale dÁcor alberga, promessa de felicidade para cada um. Sim, porque Portugal e a Europa somos nós. Refere literatura especializida, e lembra em que prato da Balança Portugal está. Não é brincadeira, precisa-se.

 

Na próxima 3ªfeira, dia 17, sentam-se no mesmo local Francisco Sarsfield Cabral e João Luís César das Neves sob o mote: "A juventude da Velha Europa". A nossa.

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
05
Set15

Gosto mais de Sócrates de brincos ou colar...

Fátima Pinheiro

O meu heterónimo "não te conheças a ti mesma" é uma segunda natureza. Gera-se e sai quando menos espero. Alegrei-me com o facto do autor do livro - escrito em inglês,  presumo que não técnico...- que é uma tese defendida na Science Po (ou Poucachinha), ou wanna be tese, esteja agora, desde ontem sem pulseira. (Um à parte :  foi Maria Filomena Mónica, na edição do Expresso de 22 de Agosto passado, que de forma rigorosa - bom jornalismo!!!!!! -, magnífica, tratou deste assunto da tese ou livro, ou assim.) Comigo alegraram-se todos os que consideram este novo estádio socrático ( e porque não até "comptiano") emergente ontem, e, note-se, não daqui a meia dúzia de dias, uma benção para para o ambiente de campanha;  isto no pressuposto de que a democracia é um bem que todos se esforçam por promover.

 

Não tendo nascido ontem, e saindo agora daquele heterónimo, nada disto me soa bem. Sócrates está livre, não usa já aquela coleira de pulso eléctrico/a. Sócrates é mesmo  um brinco, ou um brincar connosco; ou um colar, mas que já não vai pegar. Vai estar por aqui, mas já nada é igual. Fico triste, muito triste com estes directos televisivos tão pouco avisados, a darem-nos, em directo também, a nova morada do homem que saiu de Évora e que agora já pode encomendar pizza em Lisboa (quelle merveille!). Com número de porta e tudo. Se eu lá quiser ir ou fazer uma manifestação, são dados porreiros. Tristeza eu estar aqui a perder tempo com isto. Tristeza os rios de tinta que se gastam neste nada que parecer ser tudo. O mito.

 

Num tempo que precisa de debate, de argumentos e de paz para que se escolham os melhores para nos conduzir no bem comum, andamos a brincar às bonecas. E se decidissemos ir fazer o que ainda não foi feito?

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
12
Jul15

A Apologia de Laura

Fátima Pinheiro

 imagem tirada da net

 

A melhor apologia de alguém é a sua própria vida. E não há careca que não venha a ser descoberta. Não tenho que fazer um desenho, pois não? As verdades, como o azeite na água, vão vindo ao de cima. Há coisas que preferiria calar. Mas vivemos, também, numa praça pública. Tem que ser. Porque sou alérgica à injustiça e à ignorância. E prefiro ter as mãos sujas, meter as mãos na massa, do que guardá-las para depois, vegetando numa indiferença mortal. Triste ter que falar de certos casos, mas é o que há. Eu cá abraço tudo, mas só me cala a boca um beijo bom, grande, do tamanho da minha "insignificância" maravilhosa de nada ter feito para "ser". Vem esta conversa porque ontem li um artigo duma jornalista que, a partir de agora, vou passa a ler: Inês Teotónio Pereira . O artigo tem o título: "E se Laura Ferreira fosse de esquerda?

 

Conta Inês que houve quem tivesse posto a hipótese de o facto de ela ter aparecido em público ao lado do marido, o primeiro-ministro, sem esconder a doença contra a qual luta, poderia ser instrumentalização.Olhei a fotografia, e lembrei-me de outras fotografias dela, em outros eventos, ao lado do marido. Com a mesma pose, com o seu ar de mulher a quem não lhe interessa ficar bem na foto, mas sim outras coisas. Só que nessas fotografias, ela tinha cabelo.

 

Apenas umas perguntas:queriam que ela aparecesse em privado com o marido? A sua vida não mostrou já de que género de mulher estamos a falar? Não se pavoneia por aí, e tem a vida rica de gestos com pinta. Porque não se escreve sobre esses? Não "interessa", pois é! Quem é que já lutou contra um cancro? Eu ainda não,mas conheço de perto alguns "casos". Há quem"desista"!

 

Para mim é, por agora, conversa acabada. Teria muito a dizer. Mas chega. A não ser que razões ponderosas me façam falar. Parar é morrer. Triste isto. Agora, católica por adesão a um "natural" e extraordinário desafio que um dia Alguém me fez,  sou esquerda, direita e o que houver. "Universal", é isso que quer dizer a palavra "católico". Considero a política a atividade mais nobre (Aristóteles, entre outros, explica isto muito bem). Não brinco às hipóteses nem tenho a chave das intenções.Nem nada defendo. A vida, sim -  Laura também - vem com cartão de visita. Só não vê quem não quer. Não é que andemos por aqui, a jogar às escondidas! É que sem liberdade não seríamos pessoas; viveríamos tudo em segunda mão. Mesmo de cabeleira farta, sem liberdade tudo de pouco vale. 

 

Com tanta riqueza, há ainda quem discuta a falta de lenço na cabeça de uma Senhora e se ponha a conjecturar! Dêem-lhe mas é uma festa na cabeça, um abraço, ou um beijo! Comentemos outras coisas. Poderíamos falar de política.

 

A continuar narrativas destas, vamos onde? É o que acontece a quem não tem argumentos e uma cabeça, essa sim,  oca. Caso para perguntar: afinal quem está a instrumentalizar quem ? e o quê? As aparências só iludem a quem o quer.

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
14
Out14

Senhor feliz e Senhor contente

Fátima Pinheiro

 fotografia retirada da net

 

Nomes mediáticos às resmas aterram no meu couro capilar, e nem me deixam nem respirar. Isto porque decidi escrever hoje sobre uma coisa simples, que me enche as redes de comunicação. Os senhores felizes e os senhores contentes.  Eu vejo logo pela cara, pela boca, e pelo olhar. A experiência de anos de relações humanas, deu-me uma certa maturidade: à medida que o tempo vai crescendo, preciso de apenas poucos sinais - cada vez menos - para saber quem tenho à frente. Parece que julgo pelas aparências, não é? Ou presunção e água benta posso ter as que quero? Nada disso. Digo o que vejo pelo que me "aparece", é verdade. Mas não à toa, nem sem razões. Como quem está a ver um filho a andar de bicicleta, e saber de antemão que ele irá cair, quando passar perto daquela curva. As primárias do PS são disto um case sudy. A maioria , e não me refiro apenas ao PS, estava contente. Querem que eu faça um boneco? Até poderia contar pelos dedos quem estava mesmo feliz. Mas não o digo.

 

Porque escreves então? É que um blogue é também um espaço de conhecimento de si. De monitorização selecta. A que só alguns têm o acesso. E qual o problema? 25 de Abril, sempre! Agora, o que  não vale a pena é andarmos aqui a enganarmo-nos uns aos outros. É que não vale mesmo a pena. Assessores de imagem? Plásticas? Posturas? Lembrei-me agora da problemática socrática, na televisão, antes de ir para directo: "ò Luís, fico melhor assim, ou...., assim?" Isto dava para um livro. Em diferentes tomos. 

 

Com os homens da cultura é diferente.Disfarçam menos, alguns quase nada. A maioria pende para o lado do ser feliz. Não acho nada que o pobrete alegrete faça aqui muito sentido. É injusto. Podia aqui citar o mais feliz que conheço, até em pessoa, mas é melhor não.  Podia ir aos jornalistas, aos comentadores, aos economistas, médicos, presidentes ... Experimentem. O caminho passa por eu saber para onde eu própria pendo. E por saber o que quero: senhora contente? Senhora feliz? Claro que tudo na vida vem aos dois e em mistura. Dualismo, jamais. Porque não é realista. Mas estou no direito de encontrar as razões que me fazem querer pender mais para um lado do que para o outro.

 

E pronto. Vou fazer esse trabalho de casa. Não sem antes dizer quem é o "meu" mediático do dia.". O Ronaldo e o Cristiano foi por acaso. E que não se pense, pelo que aqui escrevi,  que eu ponha a imagem em segundo plano. Antes pelo contrário. A cara, os olhos, a boca precisam de ajuda. Toda a que se puder dar. Falo por mim. Ah, ia-me esquecendo,  Nuno Crato é o meu mediático do dia. E Empédocles, já agora. Eu não disse que vinham aos dois?

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
16
Set14

José Sócrates indignado com fugas e debandadas

Fátima Pinheiro
lareira da net

Este post é só um desabafo. É já noite e amanhã tenho que me levantar muito cedo. Mas é só para ter a certeza que estou acordada e para acreditar mesmo onde chega a lata. Ontem no seu comentário semanal - o do regresso - José Sócrates, com aquela voz de lamento e indignação muito dele, achou coisas inusitadas e impróprias fugas e debandadas. Se calhar foi um sonho. E como somos ambos formados em filosofia, estavamos provavelmente de robe vermelho à lareira, como Descartes, em sonhos. Mas não. E não há crítica ao argumento do Génio Maligo que o salve da dúvida hiperbólica. Isto é mesmo matemático. Ou se quiserem "pão, pão, queijo, queijo." O povo é de memória curta. E bem vestido, a falar bem, cheio de "argumentos" - e com os conselhos de imagem do Luís - irá longe.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
16
Ago14

Candidato-me em 2015, como Cunhal, o homem sexual

Fátima Pinheiro
"Não batas com a língua nos dentes"

Para preparar a minha candidatura às legislativas, trouxe de férias o livro com as fotografias que José Milhazes escolheu e Helena Matos escreveu: "Álvaro Cunhal no País dos Sovietes" (Aletheia, 2013). A obra foi um dos marcos comemorativos do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal. Vale a pena ler porque nos dá "mais" de Cunhal: não o reduz ao mito do homem, mostrando, sim, outro seu lado, mais humano. Ou seja, as imagens, reunidas numa bela edição, são como as de um álbum de família, que ficam longe da figura icónica que se pode ver noutro tipo de evocações. Para dar um exemplo, estou a lembrar-me da exposição que esteve então no Pátio da Galé - "Vida, pensamento e luta" - de caráter mais institucional, ou, se quisermos, mais partidário. A contrariar as palavras do cartaz estalinista - acima na imagem -, é como se a mulher me dissesse: "não digas a ninguém que Cunhal era um homem sexual". Em linguagem popular: "ou estás quietinho, ou levas no focinho".

Recuperando o género da banda desenhada, tal como indica o título escolhido - o Tintim de Hergé -, "o livro é um conjunto de imagens que fazem sentido; retratam o lado soviético de Cunhal, lado menos conhecido em Portugal ", sublinhou Helena Matos, a 30 de Abril do ano passado, num encontro dos autores com jornalistas. A fotografia é aliás uma mais valia para Álvaro, um homem que não comunicava facilmente, mas cuja presença bastava para impressionar. "Impressionante " foi mesmo a palavra escolhida pela escritora para definir Cunhal. Não era o orador de excelência, mas tinha uma presença de cabelo bonito, que impressionava. Veja-se na página 26, para dar um exemplo, onde a sua marca chegava bem longe, nas palavras de Yulia Petrova (neta de Kruchov): "Vejo Portugal através do homem que está sentado ao meu lado. Já conheço Portugal: para mim Portugal e Cunhal fundem-se num todo único; sempre verei esse país longínquo através da sua vida, da sua voz e do seu rosto."

O que vem então no livro? O (des)mito: numa capa que bem podia ser a de uma edição especial da revista GQ; a fumar com umas mãos impecáveis, estilosas, dedos de pianista a segurarem uma caixa de fósforos que nelas mais pareciam um isqueiro; com a filha e Arafat nos jogos olímpicos de Moscovo; em amena cavaqueira de barbeiro (e em russo) com Brejnev; a dar autógrafos, qual galã da 7ª arte; entre um molho de miúdos, filhos de portugueses funcionários de PCP; com Nito Alves, um ano antes de o renegar; a rir com Fidel; de mãos nos bolsos a visitar o mausoléu de Lenine...E mais o que não disse num total de 78 páginas. E por vezes em fotografias do tipo "Onde está o Wally?" ou "Anita é feliz na URSS.".

Porém, a felicidade que se espelhou e espalhou no seu rosto por terrenos soviéticos, foi-se apagando à medida que se extinguia a esperança de encarnar o futuro radioso de humanidade na terra lusa.

A sintetizar: Cunhal não se compreende sem este livro que nos dá o Homem sexual, isto é, alguém de carne e osso, e não apenas um bidimensional principal político da segunda metade do século XX. O livro amplia-o em 3D e, como disse Milhazes no dia do lançamento: "os mitos não costumam levar os filhos ao futebol"; "os mitos não fumam." E Portugal, tal e qual: sexual.

Ganho fôlego para não desistir : 2015 é fundamental. O papa Francisco, regista a LUSA, advertiu ontem para o "cancro do desespero" que aflige as sociedades materialistas e pediu aos católicos sul-coreanos para rejeitarem "modelos económicos desumanos", alertando para a "cultura da morte", que pode crescer rapidamente nos países desenvolvidos onde os pobres são marginalizados. E por cá....

* Este artigo teve uma primeira versão aqui :http://expresso.sapo.pt/cunhal-o-homem-sexual=f803869#ixzz3AXB1k0nV (em férias vou ao Baú e actualizo à minha circunstância actual, a de candidata, verdade).
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
11
Ago14

...dois Salgados, grão a grão...

Fátima Pinheiro
fotografia de Toya Coroa

Vem o que escrevo hoje na sequência do que aqui disse ontem à noite. Ora então. "Nem tudo o que reluz é oiro" e sempre me disseram que "as aparências iludem". Ou que "no melhor pano cai a nódoa". E aprendi que nem sempre é verdade quando eu disse "desta água não beberei". E que neste caso que hoje refiro, é verdade que "quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro". Não que eu tivesse conta no BES, nem é uma questão de espírito santo de orelha. São histórias que tenho ouvido. E eu, que tinha dito que nunca escreveria nem mais uma linha sobre o Engº Sócrates! E que tinha também dito que nem uma escreveria sobre Marinho e Pinto!

Houve um tempo em que eu só escrevia de outros assuntos: filmes, poesia, música, livros, tachos & panelas, educação. E de mim, de filosofia, dos meus, amigos e família. Agora, nestes tempos, acabo por me encontrar noutros campos. Afinal não sou mesmo maniqueísta. E disto estou certa que continuarei assim para sempre. É como dizer: sei que nunca abandonarei os "meus", sei que a justiça tem uma cara e que pode contar comigo (mesmo que falhe, levanto-me). Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Mas a verdade é que enquanto não se perceber que a lua se prende à política, não se vai longe. O resultado está à vista. Pessoas que sobrevivem, guerras escusadas, consciências demasiado tranquilas. Pessoas cansadas, como bem retrata o jovem filósofo coreano Byung-Chu Han.

Escrever sobre tudo acaba por ser "uma praia". A Filosofia "faz" e "falta". Sugiro então que sejamos prácticos. O seu a seu dono. Sugiro que a cultura tenha mais voz e efeito (para isso dinheiro é preciso). Sugiro que a "política" seja mais culta. Numa palavra, sugiro que nos procuremos para que sejamos felizes, porque é disso que andamos todos à procura. Não defendo nem uma anarquia, nem o salve-se quem puder, ou um governo que tenha de ser daquela determinada cor.

A democracia precisa de roupa nova, tino e rumo. Não para acabar no limite "mentiroso" de cremações, mas para construir a aventura, sempre sem limite, de sermos humanos, cada um, em primeira mão. O céu não pode esperar; aliás já começou. Não podemos esperar. Por que fazer amanhã o que podemos fazer hoje? Não são estas traições ao património, que é de todos e para todos, que nos tolhem o desejo. Nem eu defendo um igualitarismo sem rosto. Defendo sim uma liberdade com rosto, garra, e muito voo. Rasante.

É mesmo preciso um João Ratão que não seja morto no fundo de um caldeirão. Assim como eu, que sou também uma carochinha, que lava a sua cozinha e gosta de estar à janela. Porque procurou e encontrou. Escuso de dizer o quê. E se o meu Primeiro Ministro é laranja, e se ele me parece boa gente, digam o que disserem, aposto sem reservas. Como quem tinha acções no BES. No "jogar" há ganhar e perder. Agora, roubar é que não. Nem grão a grão. Eu? Vou agora lavar a cozinha...
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
03
Jul14

Marçal Grilo e Papa Francisco: o consenso é uma miragem?

Fátima Pinheiro
Acordei na Rádio Renascença. A ouvir um dos administradores da Gulbenkian, Marçal Grilo, a comentar o que Cavaco quer entre os partidos políticos, tema do Conselho de Estado de hoje. E a concluir: “o consenso é uma miragem”. Noutro registo recebi da jornalista da mesma rádio, a vaticanista Aura Miguel, a sua leitura de um documento que os Bispos têm agora entre mãos para analisar e sintetizar, e estar pronto para a Assembleia Ordinária dos Bispos, a realizar de 4 a 25 de Outubro do ano que vem: “ Jesus Cristo revela o mistério e a vocação da família”. Outra miragem?

O Instrumentum Laboris (IL), divulgado a 26 de Junho, http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20140626_instrumentum-laboris-familia_po.html#APRESENTAÇÃO , “recolhe os dados, testemunhos e sugestões enviados pelas dioceses, paróquias, movimentos e comunidades de todo o mundo católico, em resposta ao questionário enviado pela Santa Sé, no passado mês de Novembro, com perguntas relativas ao matrimónio, família e educação cristã” , resume a jornalista. Está estruturado em três partes, que serão amplamente desenvolvidas nos trabalhos do próximo Sínodo de 5 a 19 de Outubro em Roma, sobre “O Evangelho da família nas circunstâncias actuais; a pastoral familiar face aos novos desafios; e a responsabilidade dos pais e abertura à vida”. O Papa “extraordinário” resolveu ele também convocar este Sínodo extraordinário.

Deixo então o meu Best of do resumo elaborado pela jornalista da RR. Uma miragem também (passo de 11 para uma página) que percorro nas três partes em que o IL se divide, a saber: I - O Evangelho da Família nas circunstâncias atuais; II - A Pastoral da Família face aos novos desafios; III – Abertura à vida e responsabilidade educativa.

I. A maioria dos cristãos, incluindo os pastores ignora os ensinamentos da Igreja sobre a família, “os documentos não são minimamente conhecidos e sente-se uma certa dificuldade em pegar nestes textos e estudá-los. A maioria das respostas sublinha “o crescente contraste entre os valores propostos pela Igreja sobre matrimónio e família e a situação social e cultural diversificada em todo o planeta”. “Hoje, não só no Ocidente, mas progressivamente em todas as partes da terra, a investigação científica representa um sério desafio ao conceito de natureza. A evolução, a biologia e as neurociências, confrontando-se com a ideia tradicional de lei natural, chegam a concluir que ela não deve ser considerada «científica».”
Muitas respostas consideram desejável “linguagens acessíveis” e “melhores homilias” sobre a palavra de Deus e o valor do matrimónio e da família, bem como “promover uma pastoral capaz de estimular a participação da família na sociedade”, com incidência no mundo do trabalho, educação, saúde; na capacidade de unir entre si as gerações; na promoção de leis justas.

II. Muitas respostas frisam “a insuficiência e até a incapacidade de construir relações familiares devido ao sobrevir de tensões e conflitos entre os cônjuges, causados pela falta de confiança recíproca e de intimidade, ao domínio de um cônjuge sobre o outro, mas também pelos conflitos geracionais entre pais e filhos.”
As respostas que chegaram de todo o mundo mencionam os “escândalos sexuais no âmbito da Igreja (pedofilia, sobretudo), mas também em geral a de uma experiência negativa com o clero ou com outras pessoas”.

Todas as Conferências Episcopais se expressaram contra uma “redefinição” do matrimónio entre homem e mulher, através da introdução de uma legislação que permita a união entre duas pessoas do mesmo sexo. Quanto a uma pastoral a favor destas pessoas, ainda não existem programas pastorais a este propósito, por isso “não faltam pedidos para que se aprofunde, os sentidos antropológico e teológico da sexualidade humana e da diferença sexual entre homem e mulher, capaz de fazer face à ideologia do género.”

As respostas recebidas pronunciam-se “contra uma legislação que permita a adopção de filhos por parte de pessoas em união do mesmo sexo, porque vêem em perigo o bem integral do filho, que tem direito a ter uma mãe e um pai, como foi recordado recentemente pelo Papa Francisco (cf. Discurso à Delegação do departamento internacional católico da infância, 11 de Abril de 2014).“

III. Os atuais contrastes entre uma visão cristã da vida e da sexualidade, e um delineamento fortemente secularizado foram identificados já pelo Papa Paulo VI que, na Encíclica Humanae Vitae, estava consciente das dificuldades que as suas afirmações poderiam suscitar. Em contextos mais secularizados, “a redução da problemática à casuística não beneficia a promoção de uma visão ampla da antropologia cristã. Faz-se notar, muitas vezes, como o ensinamento da Igreja é rejeitado apressadamente pela mentalidade predominante como retrógrado, sem se confrontar com as suas razões e com a sua visão do homem e da vida humana.”

A última parte do IL trata do desafio educativo. “Frequentemente, se verificam reticências e desinteresse por parte dos pais em relação ao percurso de preparação cristã proposto pelas comunidades. O resultado é que muitas vezes os pais evitam participar nos percursos previstos para os filhos e para eles, justificando-se com razões de tempo e de trabalho, enquanto muitas vezes se trata de desleixe e de busca de soluções mais cómodas ou rápidas. Sente-se a necessidade de um acompanhamento melhor, permanente e mais incisivo em relação aos pais que vivem tais situações. Uma vez que é elevado o número de quantos voltam à fé por ocasião da preparação dos filhos para os sacramentos.”
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).

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