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Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo (Ef 4, 23-24).

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

26
Mai16

Jorge Silva Melo: "é muito bom estar vivo!"


Fátima Pinheiro

 timthumb.jpg

Jorge Silva Melo, imagem tirada da net 

 

No dia da estreia de O Jardim Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, não resisti a umas perguntas ao encenador, o homem do teatro da politécnica. A pinta dele. A "uma mulher sem importância", não houve palavra que não "me" ouvisse, resposta a tudo. Um homem livre. Isto a minutos da estreia. Nas calmas, porque nele vida e teatro coincidem. Hoje, dia do Corpo de Deus, feliz coincidência, é bom postar aqui uma conversa com uma pessoa que encarna,cada noite, a esperança. Foi Péguy que pôs o dedo na ferida ao gritar que ela é a virtude pequenina que ampara as outras duas, a fé e a caridade. É ela que cada dia acorda com olhar renovado e diz bom dia - neste caso "boa noite" cada noite - aos pobres e órfãos. Assim como eu quero ser. No pórtico.

 

Rasante (R): Jorge Silva Melo. Vamos ter uma estreia fabulosa com certeza, Tennessee Williams, por si...

 

Jorge Silva Melo (J) : O Jardim Zoológico de Vidro, é a primeira peça no fundo escrita  pelo Tennessee Williams, ele já tinha escrito outras, mas esta é a primeira que teve um êxito gigantesco em 46, e que é uma peça de adeus. É uma mãe, dois filhos, um rapaz e uma rapariga e o rapaz já mais velho, vai-se lembrando de como foi a vida naquela casa, como a mãe era possessiva, autoritária, charmosa, falhada (completamente) mas, possessiva, e como ele separou...


R: Como um bocadinho todas as mães, não é?

J: Como as mães devem ser! Está na sua obrigação! risos


R: Assim muito possessivas também não...

J: Eu acho que faz bem... risos


R: Porquê, já agora?

J:  Então, é o que está nesta mãe! Ela sonha para os filhos aquilo que não teve... A filha é deficiente como a verdadeira irmã do Tennessee Williams, era deficiente, sofreu uma lobotomia e ficou como um vegetal até ao fim da vida, e viveu mais tempo do que o Tennessee Williams....

 

R: E o resto, vimos ver a peça, também não pode estar a contar tudo!

J: Mas é a maneira dele dizer adeus, e porque é que ele saiu de casa e porque é que ele sentiu sempre um remorso.

 

R: E porque é que se interessou por esta peça?

J: Esta adequa-se muito bem a este teatrinho íntimo...

R: Que já é a terceira peça este ano, não é? Pelo que eu li, eu estive aqui na anterior...

 

J: Pois exatamente, tivemos duas peças do Tennessee Williams, no São Luís e no São João. E esta adequa-se a este teatro pequenino, íntimo, porque é como se fosse um segredo. É um remorso ou uma confissão. E essa dimensão íntima adequa-se a este teatrinho.

 

R: A este teatrinho...

J: Onde os atores até podem falar mais baixinho do que eu estou a falar agora.

R: E diga-me uma coisa, gosta muito de Tennessee Williams, porque é que o escolhe? Poderia escolher outros!

 

J: É um autor muito marcante e que inventou muito do teatro moderno contemporâneo, aqui nesta peça ele marcou para sempre o teatro americano, ele consegue roubar ao cinema os flash backs, o narrador, os intertítulos, os saltos na narrativa e esta humanidade fermente e não normativa, que ele enquadra. São pessoas que não são heróis. Embora tenham uma vontade enorme de vencer na vida, mas não são heróis nem são exemplos. Isso foi tal surpresa, a peça fez 3 anos seguidos em cena, todas as noites quando estreou! 


R: E agora aqui também não se sabe... *Risos

J: Não fica 3 anos em cena! Risos

R: Nunca se sabe...
Sempre abertos ao mistério, não é...


J: Exatamente Risos

R: Teve alguma surpresa, nestes ensaios, estão a ensair há quanto tempo, só para ter uma ideia?

J: Há 2 meses, normalmente uma peça tem 2 meses de ensaios. Tive uma surpresa porque há uma personagem, que é chamada a personagem “mais realista”, que é o contraponto desta família, e que é o Jim. E o Jim normalmente é visto como o homem que cumpre o sonho americano. Vai ser racional, vai vencer na vida, e não é nada. Ele QUER, ele QUER ter o sonho americano, mas ainda é tão falhado como todos os outros. Está convencido que a ciência, se vai desenvolver, está convencido que se vai curar, e que vai vencer na vida mas é com a mesma fragilidade do que todos os outros. E isso é muito bonito. Isso eu nunca tinha visto em nenhuma das versões da peça que eu já vi, não tinha visto uma tal fragilidade nesta personagem do Jim. Foi um prazer trabalhar com o José Mata, que é quem faz esse papel e foi uma das grandes descobertas da peça, que eu conhecia de cor e salteado, e nunca tinha reparado que o rapaz era muito mais frágil do que aquilo que nos parecia ser.

R: E sente-se, assim, frágil?

J: Sim, claro... Claro! *Risos


R: Qual é a nossa maior fragilidade?


J:
A fragilidade do teu nome é “mulher”, diz o Shakespeare. Risos

R: Então, diga lá um bocadinho, você é um homem de (se) fiar...

 

J: A fragilidade é aquilo que não conseguimos vencer, aquilo que não conseguimos fazer, aquilo que achávamos que estava “à nossa mão”.

 

R: A vida é simples ou difícil?

J: A vida é ir deixando para trás uma série de propostas e apostas.

R: Mas é simples ou é difícil? É porque eu acho que é simples...

J: É simples, é simples.

R: Eu também acho.

J: Mas é deixar para trás muita coisa.

R: Mas é simples porquê, já agora?  Eu depois também lhe posso dar a minha opinião Risos


J: É simples porque é só viver. É acordar e viver.

 R: Tal e qual!


J: Mas... Temos que deixar muita coisa para trás e isso é quase sempre doloroso.

R: Mas nem para toda gente é simples.

 

J: Não, há muitas pessoas que gostam muito de fazer uma grande complicação.

R: E sabe porquê?

 

J: Não.

R: Eu estou a perguntar...

J: Não... As pessoas gostam de complicar muito.

R: Porque também não é “só deixar ir”... Há uma coisa que temos de fazer. Há uma que eu faço!

J: Não, tem muito de ser feito, MUITO de ser feito.

R: O que é que faz?

J: Trabalho! *Risos

R: Mas mais do que isso, está bem, a vida é um trabalho... Eu acho que é a liberdade, a pessoa é livre de desistir, de decidir...

J: Mas é livre também de querer transformar, querer fazer as coisas, querer realizar.

R: Para quê?

J: Para isso, para estar viva. A vida é viver.

R: Temos um minutinho... Também é adverso, à palavra “beleza”?

J: Não, gosto da beleza e fico entusiasmado com essa hipótese.

R: É porque há artistas, que quando falo na beleza, quase que me “matam”.

J: Agora está muito na moda.

R: E então dizem “interessante”, arranjam assim uns sinónimos... *Risos

J: Não, eu gosto da beleza. Uma vez escrevi um texto que me foi pedido pelo José Tolentino a dizer que a beleza dá-me pontapés, excita-me, faz-me renascer para a vida, ponta-peia-me!

R: Ela define-se mais pela negativa do que pela positiva... ou não? Fá-lo estar vivo? A mim faz!

J: Sim... Faz-me estar vivo e faz me querer fazer coisas... Belas.


R: Esta peça é uma peça bela.

J: É, é uma peça que... Ainda ontem, no ensaio geral, haviam espectadores que estavam a chorar... Queriam casar com a rapariga, no fundo! *Risos

R: Risos* Bem... Fica para outro encontro, isto é mesmo só um apontamento... Eu acho que as peças ou a arte não têm mensagem. Concorda comigo? Não lhe vou perguntar mensagem até porque... Nem quero que tenha!

J: Não, estamos aqui a ver e a viver uma fragilidade de quatro personagens que são nossos primos, somos nós próprios, não somos primos... Mas nós conhecemos. E gostamos de os ver.

R: Obrigada, agora começou a chover, temos que acabar!*Risos
E vamos então ver e convidamos... Quer dirigir assim um apelo? Para que as pessoas saiam de casa, tirem os chinelos e venham ver coisas bonitas!


J: É tão importante estarmos juntos a ver, portanto, o teatro tem essa coisa extraordinária. Há pessoas vivas que estão daquele lado e outras que estão vivas, deste lado. Estamos todos vivos a ver uma coisa, sofrendo, e é muito bom estar vivo!

R: Isso é muito bom. E ninguém sabe quem regressa a casa, não é?

J: Exatamente.

R: Obrigada e pelo que tem feito pelo teatro e pelo que vai fazer!

J: Obrigadíssimo!

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
29
Abr16

Valéria Carvalho: Mamã, Sofá e IKEA


Fátima Pinheiro

sofá.jpg

 os três

fotografia de Inês Torres da Silva

 
O sofá, a mamã e eu  é um espetáculo! Uma amiga convidou-me e fui. No fim, claro, fiz umas perguntinhas à Mamã, Valéria Carvalho. Mãe na vida real e no palco, escreveu com João Lima, o seu filho, um texto atrativo, pleno de ritmo e a prender-nos o tempo todo. Por isso voltei, e quero voltar como os meus filhos, e "comigo". É na Fundação Portuguesa das Comunicações, até 14 de Maio, às sextas e sábados. Mas espero que repitam, merece ser visto por muitos e muitos.
 
Leve e solto, o "show de bola" transporta-nos ao "eu", que eu sou, sem o qual nada de interessante acontece. O filho já não é só uma promessa e a mãe é uma atriz de mão cheia. Ambos com uma performance notável. Vitalidade, vitalidade, vitalidade. O monólogo lá mais para o fim revela uma mulher integral, e uma Rita Ferro no seu melhor (é ela que o escreve). O fim não conto, mas tem uma surpresa muito boa. Alegria e alegria. E conta-nos de príncipes e princesas encantados. Nessa noite eu fui uma delas. 
 
A publicidade resume assim: "peça que retrata o quotidiano familiar de uma mãe trabalhadora e consumista com o seu único filho a sair da adolescência para a idade adulta. Os dois vivem situações hilariantes, a par de alguns momentos de emoção, numa história pontuada pela ternura."
 
A nossa conversa segue em baixo. A seguir corri para Alfragide e "deslarguei-me".
 
Rasante (R): Vejo e revejo e não me canso. Cada vez gosto mais. Porque será?
Valéria Carvalho (VC): Alegra-me saber ! Talvez porque o texto mesmo sendo leve é profundo e subtil e aborda questões muito verdadeiras.
 
R. Ideia fabulosa: mãe e filho na arte e na vida real. Como surgiu a ideia?
VC: Desde sempre, eu e o João "brincamos" de teatro. Agora, como ele acabou de sair da EPTC Escola Profissional de Teatro de Cascais,  senti que ele estava preparado para este desafio, na vida tudo tem o seu tempo e eu senti que devia ser agora.
 
R. Diz-me Razões para ver a peça?
VC: É uma peça curiosa, divertida e profunda. Com encenação brilhante do italiano Lamberto Carrozzi  que conheci no Mindelact (Festival de Teatro do Mindelo). Música absolutamente fantástica de Marco Santos. Modéstia à parte, a nossa interpretação (minha e do meu filhote)... fomos muito bem dirigidos. A Fundação Portuguesa das Comunicações é um local muito agradável e de fácil acesso, aqui ao pé do Mercado da Ribeira. Mas sobretudo porque é uma peça contemporânea que agora temas atuais e dá alimento para a alma.
 
R. Quais têm sido as reações do Público?
VC: Reações muito verdadeiras, as pessoas riem bastante, mas também emocionam-se muito. É uma peça que faz refletir, sem dúvida. 
 
R.O que te surpreende na peça?
 VC: A reação do público! As pessoas acham graça onde nunca pensamos, é curioso. 
 
 R.Ser mãe. O que é?
VC: É  uma lição constante de humildade, de coragem, de evolução como ser humano
 
R.O "eu" que és, e que dizes tão bem no monólogo final, como o "defines"?
 VC: É um "eu" igual ao de toda gente... Um eu que precisa  aprender a amar a si próprio para poder amar e ser amado. É isto que viemos fazer aqui na Terra. 
 
R. O que é o "príncipe encantado" que referes no final?
VC: É aquele amor puro e verdadeiro, bonito e especial que acreditamos desde criança que vai aparecer  e fazer de nós uma princesa. Quando crescemos percebemos que é o contrário, é preciso se sentir princesa primeiro para o príncipe aparecer...
 
 R.Mas não será a felicidade uma utopia?
VC: É uma conquista diária, é a capacidade de reconhecer no dia a dia as coisas boas e agradecer para que elas se multipliquem.
 
 R. Adoro o vosso sofá (que não é do Ikea...) mas não sei dizer o nome. Como é?
 VC: Hahahahaha é um John Richard Ashton Classe A!!!!!
 
 
 
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
22
Out15

As "Confissões" de Jorge Silva Melo


Fátima Pinheiro

imagem tirada da net

 

Eu tento ser católico, apostólico, romano, disse ontem o encenador na Capela do Rato. Não são "Confissões" a uma nossa e querida Maria João Avillez, que conduz o ciclo de Conversas com o título "Deus", e vai trazer Marcelo, Maria de Belém, Fernando Santos e outros. O Pe Tolentino Mendonça (que acaba de receber mais um prémio literário, desta vez italiano) abriu com chave de ouro esta sua iniciativa. Jorge foi um crisóstomo para aquela sala cheia, que também tem muito que falar, sob o olhar de uma estátua de uma Nossa Senhora linda, num fundo laranja e azul, que prende e solta. O que confessou este homem que se apaixonou bem cedo por Deus? Como S.Agostinho, confessou aos homens a sua experiência de que é preciso gritar bem do fundo de si o desejo de felicidade.

 

Foi a Companhia de Amor e Perdão que o cativou.  É muito melhor "Maria vai com as outras", como é muito melhor "torcer que quebrar" (lembrou o  que o Pe António Vieira disse da superação da matéria). Acho que devia haver o sacramento da Confirmação todos os dias, e não ser limitado a ser uma segunda via do baptismo. Mas no princípio, para ele, está o episódio da Transfiguração, do Monte Tabor, que S. João, que lá estava, é o único dos quatro evangelistas que a ele não faz referência. Homem de teatro, mas que entrou pela porta do cinema (teve João Bénard da Costa como professor, sublinhou), ele transfigura-se em todos os palcos, a partir das 21h,  assistindo ao nascimento de novas criaturas, os actores que "dirige". Teatro e catolicismo nunca se deram muito bem, reconhece. Mas olhe, Jorge  (e agora é a minha fala), olhe que não: uma alegria estampada nos olhos, na face, uma honestidade intelectual invulgar e contangiante, um homem que dá gosto.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
11
Set14

Jorge Silva Melo: «a união faz a força»


Fátima Pinheiro

Jorge Silva Melo, fotografia tirada da net

"A casa de Ramallah" estreou ontem, no Teatro da Politécnica. O encenador já está entretanto em trabalhos para a estreia, no CCB, de "Gata em telhado de Zinco Quente", adaptação de uma obra de Tennessee Williams, onde brilhará a bela Catarina Wallenstein, "menina" de João Botelho , que vê hoje os seus "Maias" no país todo. A Entrevista de Jorge Silva Melo e a da Sofia Areal são prendas de anos que recebi ontem, mas que demora a transcrever para hoje. Chegam em breve. Hoje é para dizer: diz-me a tua cultura e eu digo-te a que país pertences. Dá gosto ver aquela sala no espaço da Rua da Escola Politécnica, após a estreia da adaptação de António Tarantino. Os 20 artistas que Sofia ali juntou desde ontem - como aqui referi - ilustram a história daquela Sala que é herança e terá ainda muito para mostrar. Entre eles destaco Nikias Skapinakis e Miguel Ribeiro. Por boas razões, que interessam a todos.

Skapinakis porque é um surrealismo no seu melhor (tem a decorrer em simultâneo uma exposição na Casa Fernando Pessoa) e porque fez agora 60 anos que pela primeira vez expôs neste espaço, a então "Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências". A pastelaria "Cister" é testemunha disto e de muito: de Amadeo, Vieira da Silva e, entre muitos, de um artigo intitulado "Mulheres estudam ciências", entrevista de Manuela Porto a Glicínia Quartin, então estudante de Biologia.

Miguel Ribeiro também destaco porque expõe duas fotografias marcantes. É logo quando se entra à esquerda. Ambas tiradas na África do Sul. Um Mandela "rasante" e uma mulher espancada. Sem querer exagerar, aquelas costas são para ser vistas por todos. Experimentem ir ver e vejam o que acontece. Mostra-me as costas que tens e dir-te-ei quem és.

Até já Sofia - de quem destaco tudo. A ti principalmente. E a tua coordenação da exposição, de uma harmonia inexcedível. E os teus dois quadros que mostras, de um preto e vermelho casados de forma única. Até já Jorge. Entro na vossa história que é "longa, corajosa, modesta e bela", como sublinhaste, sublinhas e aqui vou contar com as tuas palavras.
Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
07
Set14

A justiça foi o tema da semana: sucata, João Botelho, guerra e teatro


Fátima Pinheiro

"um momento no tempo, fora do tempo" (fotografia tirada da net)

Se calhar é sempre asssim: a justiça é o "must", está sempre na berlinda e há uma razão para isso. Mas esta semana foi todos os dias. O caso da "sucata" levou a perguntas e comparações intermináveis sobre pobres e ricos, impotentes e poderosos, crimes de todos os "tamanhos" - matar a mulher não é sucata também? -, penas também para todos os gostos. E, sobre o estado da arte da Justiça em Portugal. Não preciso de contar tudo desde Adão e Eva, pois não? Nem do meu Salomão best of! Com alguns detalhes que mudaram , o essencial da sua decisão mantem-se, e foi um final feliz. Na raíz, o problema está na sucata que trazemos cá dentro e fingimos ignorar. Não me digam que estou a fugir com o rabo à seringa. Mas se é assim, prefiro fugir dela do que da justiça. Percebeu-se tão bem que a tendência é esta: "salve-se quem puder". Mas não é assim em tudo? E revela-se, mais uma vez, a actualidade do"conhece-te a ti mesmo", que é simples, mas que se pensa que é muito difícil e que, para além disso, há coisas mais importantes para fazer. Mas sabem que demora menos que o tempo de um lusco fusco? É decidir entrar pela Porta...

A justiça de João Botelho é de uma beleza extraordinária. Nem o Eça seria para aqui chamado. Botelho faz o que quer, e quer bem. Já uma vez aqui o disse, a propósito da sua primeira Ópera, e mantenho. Nem vou na conversa da justiça das adaptações. Claro que os Maias estão lá, no filme. Mas está lá tudo. Num filme que se sabe pôr num "palco" que não é o teatro - isto vindo de um homem que ama Oliveira e a sua concepção do cinema como "fixar o teatro"; a opção estética dos cenários de papel não lhe terá surgiu por acaso - Botelho mostra-nos o presente. As nossas vidas hoje. Até o teatro de guerra que se vem desenhando e contando de há umas semanas para cá, lá está: de Obama faca e alguidar, aos irmãos desavindos no PS e na coligação governamental. A injustiça dos media para com Judite de Sousa ou Tony Carreira. Ou que Ronaldo ao 29 anos não se sente preparado para casar. Ou que Hollande disse que Putin não se compara a Hitler - estranho ter que o dizer, não?

Reafirmo o que disse de "Banksters": a experiência em que nos mergullha Botelho com sua nova menina dos olhos é a afirmação de uma coisa “maior”, de uma dimensão que ultrapassa a razão, embora seja esta a reconhecê-lo. A unidade ou fusão das artes em jogo no espetáculo – “numa nota só” (e Botelho reconhece sempre que a música é a matéria que trabalha - aquele "Imperador" de Beethoven move qualquer coração de pedra - https://www.facebook.com/video.php?v=917234398291613&set=vb.718048538210201&type=2&theater ...) – não se baseia numa construção, embora haja ali muito, muito trabalho (imagino os cigarros fumados). A unidade que se mostra a quem a vê, acontece por um excesso. Imprevisível. O “mistério” espreita em cada "take" para uma dimensão “desconhecida” mas “presente”, que ilumina de escondida. Prodigiosa a capacidade de deixar que o Prodigioso aconteça: uma unidade buscada, que “opera” num tempo e num espaço que nos escorrega por entre os dedos. É preciso talento, e esse, por muito que se “opere”, é , pura e simplesmente , “dado”. Não é uma evasão estético-sentimental dos problemas do quotidiano, não se trata de ética, nem de intenções, mas sim de “pura” Física.

A Porta é uma, tem Rosto e Nome, lembrou mais uma vez ontem o Papa Francisco. Entra-se de todas as formas, porque cada um de nós tem o seu caminho, cheio de portas e janelas! A justiça também está nas minhas mãos. Mas é um peso leve porque eu não sou o "fiel" da balança. Agora, ai de mim se não decido arregaçar as mangas. Hoje Domingo, será dia de muitos senhores? Ou é o Dia do Senhor? Quero uma vida ou uma vidinha? Eu quero o que é "meu" e dar a cada um aquilo que é seu. Se consigo? Não me interessa, não faço contas.
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