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Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo (Ef 4, 23-24).

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

Rasante

De tudo um pouco. Cada manhã. Ao sair da pena, bem cedinho. Tudo me interessa.

29
Mai18

Os deputados de rica vida e boa morte!


Fátima Pinheiro

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 As instituições têm uma dignidade inquestionável. Nem por um segundo duvido do nosso modelo democrático. Mas como tudo o que é humano há lapsos. No tabuleiro estão hoje diplomas que querem ser a lei da eutanásia, ou boa morte. Toca-se no cerne da vida humana: o sentido da vida ou a ausência dele.

O sofrimento vem no pacote da vida. Porquê? Ninguém sabe. O que sabemos é que as chaves da vida e da morte não estão nas mãos de ninguém. Só faltava os deputados agirem, votarem, como deuses. As leis humanas que violam a realidade são filhas de deuses menores.

A vida de um homem, diz o livro da Sabedoria, anda pelos 60, 70, no melhor dos casos pelos 80. "Vamos uns atrás dos outros", disse-me Eduardo Lourenço na missa do funeral de João Lobo Antunes.

Play god, é o pratinho do dia. Sim, gerir vidas e mortes o que é senão fazermos o que não é da competência dos homens?

A vida é um grande mistério! Assim o sofrimento e a morte. O que fazer? Tudo menos pretender ser sua dona. Ninguém é dono da vida. Por muito que queiramos uma rica vida e uma boa morte somos impotentes. A vulnerabilidade, quer o queiramos, quer não, é o que define a essência do humano . Foi isto mesmo que reconheceu recentemente o Papa Francisco que, como todos nós, somos filhos do Deus Maior, O que por nós morreu numa Cruz há cerca de 2000 anos. E não nos faltam hoje e  na História , homens e mulheres que,  com alegria, O imitaram até ao fim. As velas ardem até ao fim, lembram-se?

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
10
Mar18

Pensar na morte faz bem


Fátima Pinheiro

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A gente pensa que só acontece aos outros, mas não. É como a morte. E depois todos no velório a por a conversa em dia. Enterrem-se os mortos, cuidem-se dos vivos. E dizemos coisas sem sentido adequado. Como fazemos quando falamos do tempo tantas vezes ao dia. Não estou a dizer que é bem ou mal .É assim. Assobiar para o lado.

Viver em perspetiva leva-nos a uma vida melhor. Connosco e com os outros. As relações  tornam-se relações, e não ralações. Ou provações.

Há poucas semanas tive um amok e fui de charola para o Hospital.

Foi para mim muito bom saber a quem telefonei quando me senti mal. Tudo na vida faz sentido. Fui parar ao hospital. Desta passei. Mas não sou a mesma. Sou muito melhor.

 

Como a Igreja é 'mãe e mestra', na homila de 17 de Novembro passado papa Francisco lembrou:

 

"A Igreja, que é mãe quer que cada um de nós pense na sua própria morte. Todos nós estamos acostumados à normalidade da vida: horários, compromissos, trabalho, momentos  de descanso... e pensamos que será sempre assim. Mas um dia,  Jesus chamará e nos dirá: ‘Vem!’ Para alguns, este chamamento será repentino, para outros, virá depois de uma longa doença; não sabemos.

No entanto , “O chamaamento virá!”. E será uma surpresa, mas depois, virá ainda outra surpresa do Senhor: a vida eterna. Por isso, “a Igreja nestes dias nos diz: pare um pouco, pare e pense na morte”. O Papa Francisco descreve o que acontece normalmente: até participar do velório ou ir ao cemitério torna-se um evento social. Vai-se, fala-se com os outros e em alguns casos, até se come e se bebe: “É uma reunião a mais, para não pensar”.

“E hoje a Igreja, hoje o Senhor, com aquela bondade que é sua, diz a cada um de nós: ‘Pare, pare, nem todos os dias serão assim. Não se acostume como se esta fosse a eternidade. Haverá um dia em que você será levado e o outro ficará, você será levado’. É ir com o Senhor, pensar que a nossa vida terá fim. Isto faz bem”.

Isto faz bem – explica o Papa – diante do início de um novo dia de trabalho, por exemplo, podemos pensar: ‘Hoje talvez será o último dia, não sei, mas farei bem meu trabalho’. E o mesmo nas relações de família ou quando vamos ao médico.

“Pensar na morte não é uma fantasia ruim, é uma realidade. Se é feia ou não feia, depende de mim, como eu a penso, mas que ela chegará, chegará. E ali será o encontro com o Senhor, esta será a beleza da morte, será o encontro com o Senhor, será Ele a vir ao seu encontro, será Ele a dizer: “Vem, vem, abençoado do meu Pai, vem comigo”.

E ao chamamento do Senhor não haverá mais tempo para resolver as nossas coisas. Francisco relata o que um sacerdote lhe disse recentemente:

“Dias atrás encontrei um sacerdote, 65 anos mais ou menos, e ele tinha algo que não estava bem, ele não se sentia bem ... Ele foi ao médico que lhe disse: “Mas olhe - isso depois da visita – o senhor tem isso, e isso é algo ruim, mas talvez tenhamos tempo para detê-lo, nós faremos isso, se não parar, faremos isso e, se não parar, começaremos a caminhar e eu vou acompanhá-lo até o fim”. “Muito bom aquele médico”.

Assim também nós, exorta o Papa, vamos nos fazer acompanhar nesta estrada, façamos de tudo, mas sempre olhando para lá, para o dia em que “o Senhor virá me buscar para ir com Ele”. 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
21
Nov17

CORRE SEMPRE TUDO BEM


Fátima Pinheiro

 

 

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 foto Rasante

 

A vida é feita de contingências. Falo por mim. Para já ninguém fez nada para aqui estar. Há tantas coisas boas, a correr bem. E eu nada fiz. É o espanto diante do sol que nasce, as estrelas, as pessoas e tudo o mais que todos sabemos. Que coisa tão banal e tão criançola o que acabo de dizer. No entanto é verdade. Nós é que andamos distraídos. E andamos distraídos também no que respeito ao tempo. Sei lá eu o meu tempo? O que me espera? Então desaproveito. Dou por adquirido. Não potencializo, não olho, não gozo. Não relaxo, stresso. Vivo embaciada. Sem alegria. Lembram-se dos tempos modernos, de Chaplin? A pobreza não tem apenas um aspeto material.

Há aquela pobreza do viver, de passar o dia sem me lembrar, de reparar. E há tanto para reparar, valorizar. Mexer. Beber. Acariciar. Dar.  Mas vou fazendo assim-assim. E os dias passam. Como posso afirmar que CORRE SEMPRE TUDO BEM? Olho à minha volta e verifico que há vidas aparentemente monstruosas, de injustiças. Como pode correr tudo bem? É ver o que se passa no mundo, em Portugal, no meu bairro. Verifico a impotência para mudar. É como se houvesse um muro.

No entanto tudo corre bem se eu faço a coisa certa, na altura certa. O passo em frente, o recuo. O dia tem 24horas. Tudo corre bem, como um rio para o mar. Dá muito trabalho. Muito mesmo. Trabalho de casa, pessoal e intransmissível. Para quem o quiser. É uma luta. Mas sei se pensar que hoje é o meu primeiro ou último dia, vai tudo correr diferente. Vai tudo correr bem. O tempo pára. Cobertos de lama há tantos diamantes a descobrir. The big picture faz a diferença. Se o final não foi feliz, é porque ainda não era o final, alguém disse. Corre sempre tudo bem.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
24
Out17

Um abraço muda?


Fátima Pinheiro

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Regresso do Filho Pródigo (detalhe), Hermitage

REMBRANDT

Sou do tempo em que havia Catequese. A parábola do Filho Pródigo era um must. Fiz desenhos, pintei, tiraram-me as conclusões. Tinha menos de 10 anos. Mas ao fim de tantos anos, tive a sorte de ma apresentarem de forma espetacular; leve! E, cereja no topo do cake: quando dava aulas em S. Petersburgo, passei horas no Museu Hermitage, a olhar para a obra de Rembrandt sobre o tema. Começou uma mudança. Foi um pontapé para que eu deixasse de me "esbanjar". A questão não está em que o pródigo gaste a fortuna. O principal é que ele, eu, me tinha esbanjado. Descuidado a minha pessoa. Como? É simples. E acontece sem que se dê por isso. Era mais a pintura a olhar para mim do que eu a olhar para ela. Eu, caladinha mais que um minuto? Muito difícil. Ali não.

A imponência do Belo ainda hoje me abraça, como uma Pessoa. O quadro é de um tamanho tal e está tão bem situado (em arte, os russos tem quase todos os trunfos...) que eu era mergulhada nele, misturava-me e perdia-me. E por sorte as mãos de Rembrandt pintam na luz que eu prefiro. E por sorte cabia no tamanho dos protagonistas. Protegida do frio e da neve a fazerem de pedra os canais da Veneza imperial, e no calor das cores de uma obra única, fui o Pai, o filho mais novo, o mais velho, os que estão atrás, e aquele que dizem poder ser o próprio Rembrandt. Às vezes não era ninguém. Era a tela, uma mancha, um resto do pincel; e recomecei a ser repintada, retocada e a perceber o que era afinal a obra aberta, meu querido Husserl (Eco e Gadamer vieram muito depois; mas nós, Edmundo, não somos de modas...). Outros horizontes. 

Tenho vindo a perceber, que o que quero é ser como o Pai, que se esbanja em Amor. Com duas mãos - fizeram-me notar que uma é pintada de masculino e a outra de feminino - a perder, sem nada excluir. Porquê? Porque tenho experimentado que o que me realiza é dar. É assim que se recebe. Sim, porque o que quero é receber. Por acaso nasci ontem? É simples esquecer tudo isto: o que quero, quem quero, e por aí. Porquê? Porque penso que sou eu que faço o Amor. Muito enganada! É Ele que me faz. Eu sou um belo traço nas mão de Rembrandt. É por por isso que posso ter a pretensão de querer ser como Ele. E daqui retiro muitas conclusões em relação ao que temos vivido...

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
09
Out17

Os que estão na mó de baixo...


Fátima Pinheiro

 

A Vida é injusta e muito difícil, dizias. Eu digo-te antes, a vida parece injusta, nós é que não entendemos tudo. Falámos nestes dias das nossas vidas. De política também, que faz parte da vida, é pública, e recentemente muito pública mesmo.  Mas em feliz hora,  o Prémio Nobel da Literatura foi este ano para Kazuo Ishiguro. Precisavamos de um filósofo de boas pretensões e não de um vaidoso qualquer. E que, mais uma vez mostrasse que a vida é literatura, no sentido que o dizer reflecte o que somos de uma forma criativa, inspiradora bela.  Bela, como a vida, que às vezes parece cruel e injusta. A palavra pode mudar,  independentemente da intenção do autor. As coisas mais belas, as mais importantes, não dependem de nós. E são elas que nos fazem correr. Isso sim, depende de nós.

E aqui para nós. Só está na mó de baixo quem quer. A vida é um moinho. Ponho aqui para mim e para ti. Não, não fico à beira do abismo. Ainda o Nobel e as razões da academia : a Academia informou em comunicado que Ishiguro recebeu o prêmio porque "nos seus romances, de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa sensação ilusória de conexão com o mundo".

Neste tempo de incerteza em  que vivemos, como refere o escritor no video que escolhi e postei em cima, importa lembrar que costumamos por uma pedra no passado, quer nas vidas pessoais, quer na História. Isso é desumano. Importa trazer tudo ao de cima, à flor da pele. Doa o que doer.

É esta a literatura que interessa. Dou parabéns à Academia. Não que eu ache que a literatura, para o ser, tenha que ter mensagem. A mensagem, a vida,  é que tem que ser literatura.  E música,  a mais metafísica de todas as artes. 

Tudo tem um propósito. O que anda agora mais nas vistas são as distintas agitações dentro dos partidos. Refiro-me a Portugal. Os que estão na mó de cima, os que passaram para a mó de baixo. É tempo sim de viver, com tudo no prato, e nada debaixo do tapete. A vida é breve e bela demais para jogos e joguinhos.  Chega de espelhos e leituras que não nos levam a nada. Tenho sim saudades do teu olhar, não me deixes ir embora!

Anthony Hopkins um mestre. E ainda Ishiguro, no livro em que usa o esquema fabuloso de uma escola que educa doadores de orgãos (sem que estes o saibam desde o nício), pergunta, pela boca de uma professora: será que temos alma ? 

 

 

 

 

 

 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
08
Ago17

5 highligts para ser feliz já hoje


Fátima Pinheiro


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fotografia de um dos meus Conhaque-Philo, que me fazem muito feliz, na Casa Museu Medeiros e Almeida

 

O meu método para ser feliz custou-me apenas o que vivi até hoje e é feito de lugares comuns. Só se distingue dos outros porque é o meu. Contudo, porque é mais o que nos une do que aquilo que nos separa, partilho. Penso que posso poupar tempo a muitos, e porque faz parte da vida um princípio básico: experimento mais alegria em dar do que em receber, o que só acontece - a alegria - depois de dar. Sem saltar primeiro,  nada de verdadeiramente  interessante me acontece. É uma receita sim. Uma prescrição que tenho aprendido. Paradoxalmente, é no entanto intransmissível. E os 5 highligts andam sempre juntos e sem ordem cronológica. São casados.  O sol nasce para todos, mas ninguém o vê por mim. O meu método numa palavra: rasar. 

 

Manoel de Oliveira, o Papa, Eduardo Lourenço, Santo Agostinho, Luigi Giussani, Luis Osório, Mafalda Sá da Bandeira, Georges Stobbaerts, Tim Cook,  são decisivos. "O resto é mar, coisas que eu não sei contar".

 

1. Confiar

Sem isso nada feito. Confiar significa apostar na hipótese de que ela, a vida, é e está para me ser favorável. Também posso mandar tudo à fava. É uma opção. Razões para a minha hipótese? Basta reconhecer que houve pelo menos uma vez na vida em que foi assim.

 2. Simplificar 

A vida é simples, não é difícil. Ela, a vida é, sim, complexa. Razões? O que faço eu para me por a funcionar, o que fiz e faço para ser e existir? Rien, de rien. Do envelope vazio não tiro 20€, verdade? Dificil é por exemplo, e digo para mim agora, fazer o pino ou jogar como o Ronaldo. Por outras palavras,  a vida está ao meu alcance, o trabalho que me é exigido é tão  só seguir ou desbravar as circunstâncias. Ser muito esperta a olhar, abrir os olhos. Observar, observar, observar. O quê? O que me vai caindo ao colo, e levantar o rabinho para ir ver por detrás, debaixo da mesa, ou do outro lado da rua. A vida é simples e exige simplicidade. E trabalho.

3. Distinguir

Distinguir o que interessa daquilo que não leva a lado nenhum. Distinguir essenciais. Aguçando o interesse, o gosto, ir ao core, ao que vale a minha atenção. "Não me encontrei no lixo". Um bom banho ajuda sempre. E depois? Depois sento-me e escrevo num papel o que quero. Um plano ambicioso. Mas verdadeiro. Um plano com aquilo que quero mesmo, de coração na mesa e sem medos. Neste momento não interessa se vou ou não vou conseguir. Interessa sim saber identificar aquilo que me pode fazer feliz. Sem rodeios, identificar o alvo. Mas sem pintar a manta ou brincar às utopias mentirosas, porque nos enganam com adiares perniciosos e subversivos. Por exemplo, não me venham dizer que gordura é formosura.

4. Decidir

Identificado o que quero, segue-se a grande revolução: ter coragem para decidir lutar pelo que quero. Revolução significa ruptura e por vezes vilolência. Este é o ponto de viragem. E não é difícil!!!!! Está à mão. É arranjar a coragem, cuja etimologia é "ação do coração".  Escuso de subir aos altos das montanhas ou ao fundo dos mares. É já.

5. Pedir

Não dá para nos isolarmos. É mentira. Tudo e todos ajudam. Mesmo quem nos é obstáculo. Podemos usar a varinha mágica do espírito positivo que corta a direito e entende quem mais não sabe do que emanar o negativo. Há pessoas e coisas leves e outras pesadas. Neste ponto o segredo está no pedir eficaz, que pede à pessoa certa. Se pedimos também a Deus, então chama-se oração. E peço também aos outros e a tudo.  Arrepio caminho, ganho gosto e consolação. É mesmo "impossível viver sozinho". Companhia, memórias, sabedoria, amor. Vamos a isto, agora!!!

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
28
Jul17

A cultura do autoclismo


Fátima Pinheiro

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Tanta pressa!! Passamos a vida a despachar. Ontem uma amiga de infância fez anos. Enviei logo de manhã uma sms, para despachar. O ideal era ir lá e dar um abraço. Mas ao menos um telefonema seria muito melhor do que a mensagem  digital. E o que dizer da voz, as gargalhadas!! Mas pronto, ao menos estive digitalmente. Sou tão organizadinha. E tenho medo de não ter tempo para tudo. Não é bem medo. É não querer deixar nada para trás, não me deixar ao improviso. Se fosse um funeral, ia, claro. Mas amanhã é dia de trabalho, e tenho tanto para fazer!! Ou então vou já à missa, para despachar. Ao menos cumpri o dever dominical. Eu que gosto e preciso de missa sempre, caio nesta tantas vezes!

Outra.  Vamos ao cinema. Antes comemos qualquer coisa - não é jantar - e depressinha. A que horas é o filme? perguntamos entre duas dentadas, faltam 5 minutos, despacha-te. Mas tem os anúncios. Ok. E vamos. Este está feito, fui ao cinema. Às vezes adormeço. Quem bom! Despacho umas horas de sono, e fui ver um fime. Quer dizer não vi nada. Parece que fazemos tudo o que é bom, mas sem o fazer. Não gozamos mesmo. É como lavar mal os dentes. Mas lavamos. Ou curtir o almoço com um colega, sem almoçar e na boca, com o sabor agro-doce de uma coisa que não leva a lugar nenhum. Só para despachar este ar antiquado de quem, na prática, não  vive neste maravilhoso século XXI, de homens e mulheres que mudam de partner como quem vai à casa de banho, faz o que tem a fazer e clica no autoclismo.  É como ir ao ginásio, a correr, claro! Agora inventaram o conceito  de "escapadinhas"...

E no trabalho? Às vezes dá gosto, outras não. É como os dias. É como o fim de semana. Muitas vezes o melhor é despachar: os cinco dias que passem depressa para chegar aos dois; ou que se despachem os dois para chegar aos cinco. O mesmo dos dias de férias. Temos pressa de chegar às rotinas do trabalho. E queremos mais um reveillon, queremos passar para o ano a seguir. E as prendas, ou prenda, de Natal? Tudo a  postos. Agora às vezes, para despachar, é um envelope com dinheiro. E damos a  boa  desculpa de que é com dinheiro porque a pessoa pode escolher o que quer. Ele tem tudo! Ela é que sabe! Na, na, queremos é vêr  o assunto despachado,  não ter que pensar. Bastaria um bocadihno para imaginar o que a pessoa gostaria. Mas, até ja me esqueci de ti! Já não sei quase nada de ti. De que cor é o teu cabelo? És careca? Fiquei na semana que passou, ou ainda me lembro de coisas de há 10 anos ou mais atrás. E nunca mais tenho netos!!! E a viagem que vou fazer para o ano. E a minha festa de anos? Feita. E aquela dos meus filhos arrumados, só falta o mais novo!!!!!?????? E os dias para os sogros??

Tanta pressa. E os dias não perdoam. Vão passando. E vou a correr buscar os filhos, sobrinhos, ou visitar os velhinhos que encaixo aos sábados na minha vida, ou vou ao jantar marcado atempadamente para não falhar - ou despachar... - fazer as compras, o comer. E a loiça lavada, e  a roupa em dia. E o livro todo lido. Às vezes a passar as páginas à pressa, para chegar ao fim. E ter lido! Há quem leia em cruzado. E fui ver o tio ao hospital. E as rotinas das praias e dos toldos ! E a abstenção, os inquéritos parlamentares, comissões independentes e segredos de justiça?

Pode ser tudo muito bom, eu sei. Mas pode ser tudo muito mau. E por ser a despachar - vida que não me dá prazer nem gozo - tenho vindo a inovar. Como? Comecei seriamente há uns meses. Embora dê trabalho, é muito simples. É perguntar-me: "Fatinha, o que queres?" "Escreve num papel!". Esta pergunta pode ser feita em qualquer lugar, mesmo em plena asneira.

Escrevi tudinho. É só coragem e decisão. E tenho vindo a despachar o que não me interessa. Uma espécie de ascese. O papel é um vade  mecum, um escapulário onde decidi  escrever os nomes dos meus amigos.  Há coisas que não se deitam no autoclismo. 

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
06
Jun17

Também tenho falta de ar


Fátima Pinheiro

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Não tenho asma ou coisa parecida mas às vezes falta- me o ar. A falta de ar manifesta-se de muitas formas, tem muitas causas, e muitas das vezes é atitude, ou falta dela. Digo hoje mais palavras que dizem o que digo sempre. Em grande parte faço da vida o que ela merece, ou não. Tudo me é servido de bandeja, os bens e os males. A mim cabe-me decidir. Decidir isto ou aquilo, decidir existir. A vida tem o grande mistério de um futuro que eu não sei, simplesmente porque o futuro não existe. Existe o que está aqui, hoje, agora. Falta-me o ar sim, bato com o murro na mesa. Isso acontece se me falta visão, e se resolver achar que a vida será como eu projetar. Tudo se atropela. O que fazer?

Parar, ter consciência que da minha parte, nas minhas mãos, tenho  "apenas" o bem precioso que é a liberdade , e, claro, os condicionalismos que todos conhecemos.  Agir em conformidade. Erguer a cabeça. Olhar o essecial. Que é bem visível aos olhos. Começo então a respirar, de novo. E com verdade devo dizer que nada fiz por isso.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
22
Mai17

Passas?


Fátima Pinheiro

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 Sintra

 

"Passar" é dos verbos mais ricos e polivalentes que temos. Misterioso mesmo. E muito, muito estratégico. Sem ele não se vai onde planeamos. Por isso acabamos por deixar de planear, o que não nos favorece. Certo é que são poucos o que lhe tiram o chapéu. Usamo-lo à toa, com aliás usamos tudo, muitas vezes, à toa. O tempo, nas suas rotinas, está sujeito a mudanças. Começa uma semana, outra vez. Decidi passar a fazer a diferença. Vou passar a dar umas passas bem boas.

No meu tempo "dar uma passa", todos sabiam o que era. Não deixava se ser uma forma de passar o tempo, melhor ainda, era uma forma de não o deixar passar. Decidi que hoje não vou deixar passar nada em branco. O mesmo é dizer que decidi ser "eu". Discernir, para saber por onde e para onde quero passar. Navegar à vista, siga a marinha, mas não sem passar por um olhar avassalador, curioso, cheia duma justiça que até pode admitir que me pisem os calos. Agora, ninguém  me passa a ferro, nem passa sem que eu esteja no lugar que me compete. Nem Pilatos. Nem Herodes.

A Comédia é divina, eu sei. Passar em Bruxelas, sim, está anunciado para as hoje às 10h e 30. Passo para onde? Se eu não decido e não luto por isso, passo a uma prateleira. Pode ser. Sou soberana da minha liberdade.  Mas não há uma prateleira igual a outra. Tudo o mais é passar a vida a ver como os outros passam as suas. Estratégicos facebooks que ajudam a queimar o tempo e a encher muitos bolsos, que passam a estar cheios de nada.

E passou tudo tão depressa, diz-se. Não acho nada. Ritmos diferentes, escolhas, tolerâncias, respeitos e liberdades. Nada disso. Os nuetros hermanos  dizem "no passa nada". Não meus queridos: passa tudo! Nós é que andamos mesmo distraídos. Zénicos? Ok, mas q.b.

Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13). Exortai-vos cada dia uns aos outros, até ao dia que se chama «Hoje» (Hebr 3, 13).
01
Fev17

Eutanásia: desejada ou desejante?


Fátima Pinheiro

 

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Hoje analisa-se no Parlamento a Petição a favor da Eutanásia. O deputado do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, abriu anteontem o Programa prós e contras, precisamente sobre a Eutanásia. É o autor dessa petição, como o nome mais light de "Despenalização da morte medicamente assistida". Desta vez foi muito claro quem é pró e quem é contra (parabéns Fátima Campos Ferreira). A questão, apesar de muito complexa, é simples, como se pode verificar logo nessa intervenção inicial. Tudo o que a seguir se disse seria até escusado. Não querendo brincar com uma coisa muito séria, até parece que há uma espécie de alzeihmer filosófico.

Sabemos que é fácil navegar na maionese holandesa, e nos chamados direitos já aquiridos, e sabemos também que Kant é o guru de muitos; os gurus têm crescido como cogumelos, e tal como eles, é preciso ter cuidado, não vão ser eles venenosos. Os números postos na mesa ontem divergiam. Mas o que escrevo vem antes, ou melhor, está noutro patamar.

Com uma calma que lhe vem de defender o que acha ser óbvio o deputado começa a desenrolar o seu discurso. Muito simples: lembra que cada um dos presentes - a Fátima Campos Ferreira, por exemplo, é que decide o que faz. Não sei dizer à letra, mas era uma coisa do género: sou eu que decido com quem quero casar, sou eu que decido de que música gosto, sou eu que decido o que visto, sou eu que decido que filme vou ver,...lá,lá,lá,....sou eu que decido que vou morrer. Sou eu que decido tudo. Mesmo que se seja entregar nas mas mãos do médico a encomenda, sou eu que decido. Claro como a água, eu sou uma terra de decisões. Falta perguntar-lhe: senhor deputado, terá sido também o senhor que decidiu vir à vida?

Pode parecer simplista, mas passar por cima deste "pequeno" pormenor, que é "ao dar por mim já cá estou", é desonesto inteletualmente. Ninguém está aqui para ser do contra, para ser contra a pessoa, para prolongar sofrimentos que parecem monstruosos. Trata-se de realismo. Nenhum de nós tens as chaves da vida, a morte é sempre assistida, e medicamente assistida, e não tem dignidade. A vida sim, é digna, por isso tem mais razão quem quer "proporcionar" vida, mais e melhor se possível. Quem propociona os paliativos adequados (aqui bastaria menos estádios de futebol e mais cuidados de uma humana assistência médica; e eu que sou uma benfiquista ferranha, mas sei que a vida vale mais que o futebol - até parece ridículo ter que dizer isto; mas o futebol é só um exemplo...). Tem mais razão quem tem para oferecer ao outro mais do que abrir-lhe uma porta antes de tempo.

Há muitas janelas que se podem abrir para que o outro não se sinta um peso. É muito fácil sentir-se pesado, saber que dá trabalho, e dá. E se nós quisermos ter trabalho? Quem me impede de amar o outro custe o que custar? Falinhas mansas, não obrigada. 

Mais de 14 mil pessoas assinaram no entanto outra  petição , intitulada "Toda a vida tem dignidade", contra a eutanásia, que foi entregue a passada quarta-feira no Parlamento. 

 

 

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